Urso: o rei destronado que acabou em peluche

O último urso do Gerês, os berserkers, a Ursa Maior e Calisto, as festas do urso nos Pirenéus e os primeiros ursos de peluche: o que simboliza o urso, de onde vem cada significado e quais estão documentados.
Serra da Mourela, no Gerês, 2 de dezembro de 1843. Uma montaria de populares abate um urso-pardo. Segundo a Wikipédia, foi o último urso-pardo abatido em Portugal. Como espécie reprodutora, o urso já teria desaparecido do país no século XVII. E, no entanto, nunca saiu de cena: continua no céu, nas histórias e na cama das crianças.
O significado do urso nasce dessa longa vizinhança entre pessoas e ursos. Em muitas culturas, o urso simboliza sobretudo a força, o renascimento ligado às estações e o conforto que hoje dá um urso de peluche. A força está nos guerreiros do norte, que talvez se vestissem com a sua pele, e nas cidades que o puseram no brasão. O renascimento vem do seu ritmo: no inverno desaparece, na primavera regressa. E, na Europa, durante séculos, foi mesmo o rei dos animais. Aqui fica a origem de cada um destes significados e quais estão, de facto, documentados.
O que simboliza o urso?
Não há um significado único. Conforme a época e a história, o urso fala de poder, de primavera ou de ternura. Estes são os significados apoiados em textos e tradições:
- força e coragem, nos guerreiros do norte e nos brasões das cidades;
- renascimento, com o urso que acorda do longo sono de inverno;
- realeza, porque na Europa reinou muito tempo sobre os animais;
- orientação, com a Ursa Maior que conduz ao norte;
- conforto, desde que o urso de peluche entrou nos quartos das crianças.
Um vizinho dos homens desde a pré-história
O urso não é só um animal de conto. Desde tempos remotos que os humanos o caçam, pela carne e pela pele, e o urso, por sua vez, deixou marcas fundas nos mitos, nos costumes populares e na arte. A palavra «urso» vem do latim ursus (ursa para a fêmea), raiz que continua viva no nome científico da família: Ursidae.
Na gruta de Chauvet, no sul de França, foram encontrados crânios de urso provavelmente colocados de propósito. Esse «provavelmente» não está ali por acaso: ninguém sabe o que aquele gesto queria dizer. Muito mais tarde, no Japão, os ainus dedicaram ao urso uma cerimónia religiosa complexa, o Iyomante.




Do rei dos animais ao rei destronado
Hoje diz-se que o rei dos animais é o leão. Na Europa, nem sempre foi assim. O historiador francês Michel Pastoureau conta-o no livro L’Ours, histoire d’un roi déchu (2007), à letra «O urso, história de um rei destronado». Segundo a sua tese, o leão tirou a coroa ao urso, que até cerca do fim do século XII ocupava o topo do mundo animal.
Pastoureau defende ainda que a Igreja combateu o urso durante quase mil anos. Transformou um animal admirado demais numa criatura inquietante e sentou o leão no trono. O livro guarda uma surpresa para o fim: conta também a história do urso de peluche, que a editora apresenta como o último eco de uma relação apaixonada entre o homem e o urso.
Berna, a cidade que traz o urso no nome
Na Suíça, Berna traz o urso no próprio nome, pelo menos segundo a tradição. Em 1191, diz a lenda, o duque Bertoldo V de Zähringen deu à cidade o nome do urso que tinha matado ou capturado (urso, em alemão, diz-se Bär). Os estudiosos preferem outra pista: uma antiga palavra celta, berna, que quereria dizer «fenda». Ainda assim, os berneses puseram o animal no brasão, e o nome próprio Urs, do latim ursus, continua frequente por lá.
A força do guerreiro: os berserkers
Quem pensa no urso pensa primeiro na sua força. Nas sagas escandinavas, alguns guerreiros chamam-se berserkers: atiram-se ao combate tomados por uma fúria cega. O nome berserker tem duas origens possíveis. Régis Boyer, historiador francês especialista no mundo nórdico, preferia a leitura «camisa de pele de urso»: o guerreiro fazia sua a força do animal cuja pele usava como armadura. Vestir-se de urso era apoderar-se do seu vigor.
Outro animal, pelo contrário, ficou a viver connosco em casa: o cão. O nosso artigo sobre o significado do cão conta essa história.
Meses de sono e festas de primavera

O seu hábito mais surpreendente talvez seja este: quando chega o inverno, o urso-pardo procura covas e grutas e entra num estado de letargia que pode durar até sete meses. Quando os dias crescem, sai da toca. Para os povos da montanha, a mensagem era clara: o inverno chegava ao fim.
Esse significado continua vivo nos Pirenéus. Todos os invernos, cinco aldeias entre França e Andorra celebram as suas festas do urso: Arles-sur-Tech, Prats-de-Mollo-la-Preste e Saint-Laurent-de-Cerdans, no Haut-Vallespir, e Encamp e Ordino, em Andorra. Alguns jovens vestem-se de urso e percorrem as ruas a tentar apanhar quem assiste, entre danças, música e discursos em catalão.
Em 2022, a UNESCO inscreveu estas festas no Património Cultural Imaterial da Humanidade. Segundo a UNESCO, representam o fim do inverno, o regresso da primavera (com o urso que acorda da hibernação) e a ligação entre o ser humano e a natureza. Quem passar pelo Vallespir em fevereiro pode ver o urso descer da montanha.
A Ursa Maior: Calisto e o caminho para o norte

Em Portugal já não vivem ursos na serra, mas há dois no céu. Os gregos contavam assim a sua história. Calisto, filha de Licáon, rei da Arcádia, foi amada por Zeus e transformada em ursa por uma Hera furiosa. Zeus acabou por colocá-la no céu: é a Ursa Maior. O filho de ambos, Arcas, tornou-se, nesta versão, a Ursa Menor, para que mãe e filho ficassem sempre lado a lado no mesmo pedaço de céu.
O urso deu nome até ao extremo norte do planeta. Em grego diz-se arktos, e daí vem a palavra Ártico. E a Ursa Maior serve de bússola. O astrofotógrafo português Miguel Claro, que fotografa o céu do Alqueva, explica o truque: trace uma linha imaginária entre Merak e Dubhe, duas estrelas da ponta da Ursa Maior, prolongue-a cerca de cinco vezes essa distância e chega à Estrela Polar, a que indica o norte. Uma ursa que leva os viajantes para casa: boa razão para olhar para o céu esta noite.
Peluche ou pelúcia: como nasceu o urso dos miminhos

Em Portugal diz-se urso de peluche; no Brasil, urso de pelúcia. A história é a mesma dos dois lados do Atlântico. Novembro de 1902, Mississípi. O presidente Theodore Roosevelt participa numa caçada ao urso. Segundo um relato que ficou famoso, prendem a uma árvore um urso ferido para que o presidente o abata. Roosevelt recusa-se a matá-lo. A 16 de novembro, o cartoonista Clifford Berryman publica no Washington Post um desenho em que o presidente poupa o urso. Entre os leitores está Morris Michtom, dono de uma loja de doces e brinquedos. Com a mulher, Rose, que cose bonecas de pano, põe à venda em 1903 um urso de peluche chamado Teddy.
O urso Steiff, do outro lado do oceano
Entretanto, na Alemanha, Richard Steiff regressa do jardim zoológico de Estugarda com esboços de ursos. Convence a tia, Margarete Steiff, a fabricar um urso articulado em pelúcia de mohair, o modelo PB 55. Ela apresenta-o em 1903 na feira de brinquedos de Leipzig, e um comprador americano, Hermann Berg, encomenda mais de 3000. O urso de peluche nasce assim quase ao mesmo tempo nos Estados Unidos, com Morris e Rose Michtom, e na Alemanha, com Richard e Margarete Steiff.
Um urso que consola
Desde então, o peluche tem uma missão clara: consolar. Peter Bull, um dos primeiros a falar de «urso terapêutico», deu a um peluche uns braços rudimentares. Queria assim explicar a uma criança a malformação com que ela tinha nascido, causada pela talidomida, e dar-lhe conforto. Russell McLean, a quem chamavam «Teddy Bear Man», oferecia um urso a cada criança internada no hospital. E o primeiro museu do urso de peluche do mundo abriu em 1984 em Petersfield, em Inglaterra. O antigo rei dos animais acabou nos nossos braços.
Sonhar com urso, urso totem: tradição ou leitura moderna?
Quem procura o que significa sonhar com urso, ou o que representa como totem ou animal de poder, encontra páginas que fazem dele um curandeiro ou um guia interior. São interpretações de hoje: não aparecem nas tradições antigas consultadas para este artigo. Aqui, um significado é considerado documentado quando assenta numa fonte histórica precisa, num texto antigo conservado ou numa tradição bem descrita. A tabela separa as duas coisas:
| Ideia | Origem | Estado da fonte |
|---|---|---|
| O urso como força do guerreiro | Berserkers das sagas nórdicas | Literatura, documentada |
| O urso rei dos animais | Europa até ao século XII, segundo Pastoureau | História, documentada |
| O urso da primavera | Festas do urso dos Pirenéus, UNESCO 2022 | Tradição viva, documentada |
| O urso no céu | Mito grego de Calisto e Arcas | Mitologia, documentada |
| O urso que consola | Urso de peluche, desde 1903 | História recente, documentada |
| O urso totem, animal de poder ou curandeiro | Sites espirituais atuais | Leitura moderna, não atestada nas fontes consultadas |
| Sonhar com urso | Livros de sonhos e sites | Interpretação pessoal |
A mesma distinção vale para qualquer animal. O nosso artigo sobre a simbologia dos animais explica como nascem estes significados, entre histórias antigas e crenças novas.
Um urso na lapela

Entre o rei da floresta e o peluche, os nossos broches de urso ficam do lado da ternura. São quatro modelos:
- um urso de pé em resina preta brilhante, com a barriga marmoreada de cinzento e um laço dourado;
- um ursinho violeta sentado com um laço às riscas, com um contorno de aço em tom prateado;
- um ursinho de esmalte preto com contorno de aço em tom dourado;
- um ursinho multicolor de cabeça azul e corpo vermelho, com um cachecol às riscas verdes, violeta e cor-de-rosa.
Para os combinar com o resto da sua bijutaria, veja também os nossos broches dourados e os modelos prateados. Os quatro ursos prendem-se com um íman: a placa fica do lado de dentro da roupa, como nos nossos outros broches sem alfinete.
Um urso sobressai mais num fundo liso: a lapela de um casaco, a gola de um sobretudo, o ombro de uma camisola, a parte lisa de um saco de lona. O preto destaca-se sobre o camelo ou o cru; o violeta, sobre o bege ou a ganga. Há mais sítios onde o pôr, peça a peça, no nosso guia sobre como usar um broche.
Oferecer um urso

Um urso diz alguma coisa a muita gente: a quem guardou o peluche de infância, a quem gosta da serra, a quem coleciona figuras de animais. A sua história também sugere algumas palavras para o cartão:
- para alguém que atravessa um momento difícil, lembrando o peluche que consola;
- para quem precisa de coragem, com o urso dos guerreiros e dos brasões;
- para quem caminha no Gerês, em lembrança do último urso da serra;
- no fim do inverno, como saudação ao urso que acorda na primavera;
- para quem gosta de olhar as estrelas, com a Ursa Maior que leva à Estrela Polar.
O rato também fez um longo caminho, das fábulas à fada dos dentes: contamos tudo no nosso artigo sobre o significado do rato. Para outros animais, espreite os nossos broches de animais ou todos os nossos broches.
O significado do urso em resumo
| Tradição | Onde aparece o urso | O que diz |
|---|---|---|
| Pré-história | Crânios de urso na gruta de Chauvet | Um animal que talvez já tivesse um papel especial |
| Europa medieval | Rei dos animais, destronado pelo leão | Uma realeza perdida |
| Escandinávia | Berserkers das sagas | A força do guerreiro |
| Berna | Lenda de 1191, brasão da cidade | O nome e o emblema de uma cidade |
| Portugal | Último urso abatido no Gerês em 1843 | Um vizinho que desapareceu da serra |
| Pirenéus | Festas do urso, UNESCO 2022 | Fim do inverno, renascimento |
| Grécia antiga | Calisto e Arcas, Ursa Maior e Ursa Menor | O urso do céu que conduz ao norte |
| Século XX | Roosevelt 1902, Teddy e Steiff 1903 | O conforto |
Temido, venerado, destronado e por fim abraçado todas as noites: o urso já viveu de tudo. Talvez a sua mensagem mais sincera seja esta: a verdadeira força também pode ser terna.
Perguntas frequentes
O que simboliza o urso?▾
Sobretudo a força, o renascimento na primavera depois da hibernação e o conforto, que hoje o urso de peluche representa. Na Europa, o urso foi também durante muito tempo o rei dos animais, antes de o leão ocupar o seu lugar.
O que significa sonhar com urso?▾
As interpretações dos sonhos com ursos, tal como as que fazem do urso um totem, um animal de poder ou um curandeiro, são leituras modernas e pessoais. Não aparecem nas tradições antigas consultadas aqui. As tradições ligam o urso à força dos guerreiros, ao fim do inverno e, através da Ursa Maior, ao céu.
Quem inventou o urso de peluche?▾
Há duas respostas. Nos Estados Unidos, Morris e Rose Michtom puseram à venda em 1903 um urso de peluche chamado Teddy, inspirados num cartoon sobre o presidente Theodore Roosevelt, que em 1902 se tinha recusado a disparar sobre um urso ferido preso a uma árvore. Na Alemanha, Margarete Steiff fabricou, a partir dos esboços do sobrinho Richard, o urso articulado PB 55, apresentado em 1903 na feira de brinquedos de Leipzig.
Ainda há ursos em Portugal?▾
Não como população que se reproduza no país: o urso-pardo terá desaparecido de Portugal no século XVII, e o último urso foi abatido a 2 de dezembro de 1843, na Serra da Mourela, no Gerês. Em 2005 foram encontradas pegadas de urso-pardo em Peña Trevinca, a cerca de 20 km da fronteira portuguesa.
Qual é a relação entre a Ursa Maior e a Ursa Menor?▾
No mito grego, a ninfa Calisto foi transformada em ursa e colocada no céu como Ursa Maior; o filho, Arcas, tornou-se a Ursa Menor. No céu, duas estrelas da Ursa Maior, Merak e Dubhe, indicam a Estrela Polar, que pertence à Ursa Menor. A palavra grega para urso, arktos, deu origem à palavra Ártico.
