Cão: significado espiritual de um guardião fiel

Um cão sozinho com o rebanho na Serra da Estrela, Hachikō à espera em Shibuya, Anúbis e Cérbero às portas dos mortos: o que simboliza o cão, história a história.
Serra da Estrela, inverno. O pastor desce à aldeia e deixa o rebanho lá em cima, no frio da montanha. Quem fica com as ovelhas é um cão grande, de pelo áspero, que ninguém precisa de vigiar. Foi ele que, durante gerações, as defendeu dos lobos. Antes de qualquer mito, é esta a primeira resposta a quem procura o significado espiritual do cão: o cão guarda.
O que simboliza o cão, então? Primeiro, a proteção: guarda o rebanho e a casa, e os romanos já punham o aviso à porta. Depois, a fidelidade, da Odisseia de Homero a uma estação de Tóquio. Por fim, em várias mitologias, é um guia entre dois mundos: Anúbis no Egito, Cérbero na Grécia e Xólotl entre os astecas vigiam a passagem dos mortos. Companheiro dos vivos, o cão vela também pelos mortos.
Em cada história, separamos o que se conta daquilo que se quis ver nela.
O cão que guarda: da Serra da Estrela a Pompeia
De todos os papéis do cão, o de guardião é o mais concreto. Portugal tem um exemplo vivo disso, nascido na montanha.
O cão da Serra da Estrela, sozinho com o rebanho
O cão da Serra da Estrela é uma raça portuguesa de grande porte, natural da serra que lhe dá o nome. Estima-se que seja uma das raças caninas mais antigas da Península Ibérica. O pelo áspero ajuda-o a aguentar os invernos rigorosos da altitude, e a força permitia-lhe defender os rebanhos dos lobos. Acompanhava pastores e ovelhas nas deslocações de todos os anos, incluindo a transumância.
O pormenor mais bonito vem da vida no monte. O cão ficava sempre com as ovelhas enquanto o pastor ia à aldeia, e foi assim que ganhou um carácter independente, explica a página da Wikipédia sobre o cão da Serra da Estrela, que o descreve como inteligente, leal e valente. Numa só raça cabem dois símbolos do cão: guardar e ser fiel.
Cave canem: o aviso à porta de Pompeia

Muito antes dos pastores da serra, os romanos tinham transformado o cão de guarda num aviso. Em Pompeia, na chamada Casa do Poeta Trágico, um mosaico à entrada mostra um cão ameaçador e duas palavras latinas: Cave canem, «Cuidado com o cão». O escritor Petrónio brinca com essa ideia no Satíricon: ao entrar em casa do rico Trimalquião, o narrador, Encólpio, leva um susto diante de um cão… que afinal está apenas pintado.
O aviso atravessou os séculos e ainda se lê em muitos portões, em latim ou em português. O cão de guarda é o que vela enquanto a casa dorme.
Fidelidade: os cães que não saíram do lugar
Guardar um rebanho é uma coisa. Esperar por alguém que não volta é outra, e é dessa fidelidade que os livros mais falam.
Hachikō, quase dez anos na estação de Shibuya

Hachikō, um akita, nasce a 10 de novembro de 1923. No ano seguinte é adotado por Hidesaburō Ueno, professor do departamento de agricultura da Universidade Imperial de Tóquio. Todos os dias, o cão acompanha-o à estação de Shibuya e, ao fim da tarde, regressa lá sozinho para o esperar. A 21 de maio de 1925, Ueno morre de repente. Hachikō continua a ir à estação, tarde após tarde, durante quase dez anos, até à sua própria morte, em 1935.
Em 1932, o jornal Asahi Shinbun conta a sua história e o Japão inteiro fica a conhecê-la. Chamam-lhe Chūken, «o cão fiel». Em abril de 1934, é inaugurada na estação uma estátua de bronze, na presença do próprio cão. A página da Wikipédia sobre Hachikō conta esta espera em pormenor.
Argos, vinte anos à espera
Séculos antes de Shibuya, Homero já tinha contado a história de um cão que espera. No canto XVII da Odisseia, Ulisses volta finalmente a casa depois de vinte anos de ausência, disfarçado de mendigo. À entrada do palácio, um cão velho está deitado no estrume, cheio de parasitas: desde que o dono partiu, os criados deixaram de cuidar dele. É Argos.
O cão não se deixa enganar pelo disfarce. Fraco demais para se aproximar, abana a cauda, como uma carícia ao longe. Depois morre. Aguentou apenas o tempo suficiente para voltar a ver o dono. É por isso que Argos se tornou um símbolo literário da fidelidade animal.
Um cãozinho num retrato de casamento
A pintura também fez do cão um sinal de lealdade. Em 1434, Jan van Eyck pinta O Casal Arnolfini, um quadro hoje exposto na National Gallery de Londres. Em primeiro plano, aos pés do casal, há um cãozinho. Nele se quis ver a fidelidade conjugal: os esposos prometem um ao outro aquilo que o cão dá sem que ninguém lho peça.



Cão, significado espiritual: o companheiro das almas
Eis o significado mais surpreendente. Em muitos mitos, o companheiro de toda a vida torna-se guia na noite da morte. Estes cães têm um nome erudito: chamam-se psicopompos, porque conduzem as almas até ao reino dos mortos. Um animal psicopompo não representa a morte: acompanha a passagem de um mundo para o outro.
Anúbis, o canídeo negro das necrópoles

No antigo Egito, Anúbis aparece como um grande canídeo negro, deitado. Cão ou chacal? Para um egiptólogo do British Museum, trata-se provavelmente de um chacal. Há uma hipótese para essa escolha: o chacal ronda os túmulos durante a noite, e os antigos egípcios tê-lo-iam associado à morte.
Anúbis torna-se o senhor das necrópoles e o patrono dos embalsamadores. Recebe os defuntos e participa na pesagem do coração. É venerado sobretudo em Hardai, a cidade a que os gregos chamavam Cinópolis, «a cidade do cão». O seu culto durou mais de três milénios: começou por volta do século XXXII antes de Cristo e só se apagou algures entre os séculos IV e VI.
Cérbero, o cão à porta do mundo subterrâneo
Os gregos não confiam ao seu cão a tarefa de guiar os mortos, mas a de os vigiar. Cérbero, filho dos monstros Equidna e Tífon, guarda a morada de Hades. A missão dele é dupla: impedir que os mortos fujam e que os vivos venham buscar algum deles.
Poucos conseguiram iludir a sua vigilância. Héracles captura-o: é o seu décimo segundo trabalho. Orfeu encanta-o com a sua música para ir buscar Eurídice. Eneias e a Sibila atiram-lhe um bolo que o adormece. A página da Wikipédia sobre Cérbero enumera os raros que passaram por ele e voltaram vivos. Até o mais terrível dos cães se deixa amansar.
Xólotl, o companheiro dos mortos entre os astecas
Do outro lado do Atlântico, os astecas confiam uma missão parecida a Xólotl. Este deus, quase sempre representado com cabeça de cão, acompanha todas as noites o sol na descida ao mundo subterrâneo e guia as almas dos defuntos até ao Mictlán, o reino dos mortos. Os especialistas costumam reconhecer na sua cabeça a do xoloitzcuintle, o cão sem pelo do México. Xólotl encarna também a estrela da tarde.
Egito, Grécia, México: três civilizações distantes e a mesma intuição. Quem nos acompanha de dia acompanha-nos também de noite. Outros animais fizeram de barqueiros: na tradição hindu, é um peixe que guia a humanidade através do dilúvio, como contamos no nosso artigo sobre o simbolismo do peixe.
São Roque e Guinefort: um pão e um galgo santo

Na Europa cristã, o cão teve dois papéis inesperados: o de salvador e, num canto de França, até o de santo, apesar da Igreja.
O cão de São Roque
Na arte religiosa, reconhece-se São Roque pelo seu cão. Atingido pela peste, o santo refugia-se num bosque perto de Sarmato, em Itália. Brota ali uma nascente e, todos os dias, um cão traz-lhe um pão, provavelmente enviado pelo dono. Esse dono seria o nobre Gottardo Pallastrelli. Na Bretanha, uma estátua da igreja da ilha de Bréhat mostra até o cão a lamber a ferida do santo.
Guinefort, o galgo venerado na Dombes
Agora, uma história francesa, e das mais estranhas. Por volta de 1250, o dominicano Estêvão de Bourbon (Étienne de Bourbon) conta que na Dombes, perto de Lyon, as pessoas prestam culto… a um cão. Guinefort era um galgo. Segundo a lenda, mata uma serpente que ia morder o filho do dono, um cavaleiro. O cavaleiro encontra a criança coberta de sangue, julga o cão culpado e mata-o. Depois descobre a serpente despedaçada e a criança, que acorda sã e salva.
Ao perceber o erro, o cavaleiro enterra o galgo e planta um arbusto sobre a sepultura. Pouco depois, a gente da região atribui ao «cão mártir» o poder de curar as crianças. Estêvão de Bourbon manda desenterrar e queimar os restos do cão, juntamente com o arbusto. De nada serve: o culto do galgo santo dura séculos, até aos anos 30 do século XX.
O Cão no zodíaco chinês
Na China, o Cão é o décimo primeiro dos doze animais do zodíaco, entre o Galo e o Porco. Corresponde ao ramo terrestre Xu. A astrologia chinesa atribui-lhe qualidades próximas das que a Europa reconhece aos cães: seria sensível à injustiça, inteligente e prestável.
O fio comum: um cão que fica
Postas lado a lado, estas histórias dizem quase a mesma coisa:
- na Serra da Estrela e em Pompeia, o cão guarda os que dependem dele;
- de Homero a Tóquio, encarna uma fidelidade que sobrevive à ausência, e até à morte do dono;
- nos mitos egípcios, gregos e astecas, vigia a passagem entre a vida e a morte;
- na história cristã, alimenta São Roque doente e, na Dombes, um galgo chegou a ser venerado como santo.
O fio comum? A presença. O cão fica quando os outros partem. Para além destas tradições, se um cão o faz pensar na alegria, na infância ou num companheiro que já partiu, essa leitura é sua, e é pessoal. O gato também mudou de significado de um país para outro: contamos porque é que o gato dá sorte.
Oferecer um cão em broche: a quem e com que palavras
A quem
Com todas estas histórias por trás, um cão serve para muitas ocasiões:
- uma amizade de uma vida inteira, em homenagem a Argos e a Hachikō;
- um aniversário de casamento, com um piscar de olho ao cãozinho dos Arnolfini;
- uma casa nova, pelo cão que vigia a soleira e o rebanho;
- alguém nascido num ano do Cão;
- alguém que acabou de adotar um cachorro;
- a memória de um companheiro de quatro patas que já partiu, como um guia que continua ao seu lado.
Para todas estas ocasiões, entre os nossos broches de cães e cachorrinhos há um para cada feitio, do mais ajuizado ao mais traquinas.
Umas palavras para o cartão
- «Fiel como Hachikō»
- «Fico aqui, nem que passem vinte anos»
- «Um guardião para a casa nova»
Um cão para levar ao peito
Um broche em forma de cão é um companheiro que não larga o seu casaco. Entre os nossos broches de bijuteria, vários cães e cachorros lembram estas histórias. O cão sentado de cabeça preta, com laço branco às bolinhas pretas, em aço de cor dourada, tem o ar de um guardião ajuizado. O cachorro em aço de cor prateada, de cabeça cinzento-antracite, orelhas azul-lavanda e narizinho cor-de-rosa em forma de coração, transmite antes ternura. E o cão branco e cinzento de impermeável com capuz e botas, em aço de cor dourada, está pronto para passear à chuva. Os três são broches de bijuteria com fecho magnético.
Na lapela de um blazer, numa camisola de malha ou numa mala, um cão faz-se notar sem dar demasiado nas vistas. E, se ainda hesitar, outras criaturas esperam por si entre as pregadeiras com motivos de animais.
Cão: significado espiritual em resumo
O significado do cão muda de uma tradição para outra, mas voltam sempre três ideias: proteção, fidelidade e guia entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Aqui fica tudo de relance:
| Tradição ou fonte | História ou figura | O que o cão representa |
|---|---|---|
| Portugal (Serra da Estrela) | O cão da Serra da Estrela | A proteção: defendia os rebanhos dos lobos |
| Pompeia | O mosaico Cave canem | A proteção da casa |
| Japão (Tóquio, de 1925 a 1935) | Hachikō | A fidelidade: quase dez anos de espera na estação de Shibuya |
| Odisseia de Homero (canto XVII) | Argos | A fidelidade: reconhece Ulisses ao fim de vinte anos |
| Pintura flamenga (1434) | O cãozinho de O Casal Arnolfini | A fidelidade conjugal |
| Antigo Egito | Anúbis | O senhor das necrópoles, que recebe os defuntos |
| Grécia antiga | Cérbero | O guardião da fronteira entre os vivos e os mortos |
| Astecas | Xólotl | O guia das almas até ao Mictlán |
| Europa cristã | O cão de São Roque, o galgo Guinefort | O socorro e a cura |
| Zodíaco chinês | O décimo primeiro signo | Um feitio sensível à injustiça, inteligente e prestável |
Perguntas frequentes
Quantas cabeças tem Cérbero?▾
Depende dos autores. Quase sempre é representado com três cabeças, mas as descrições antigas variam: o poeta grego Hesíodo, por exemplo, dá-lhe cinquenta.
O que se deixava nos túmulos para acalmar Cérbero?▾
Segundo a tradição grega, colocava-se no túmulo um bolo de mel destinado a Cérbero, ao lado do óbolo reservado a Caronte, o barqueiro dos infernos.
Onde está hoje Hachikō?▾
Depois da sua morte, a 8 de março de 1935, Hachikō foi embalsamado e está hoje exposto no Museu Nacional de Ciência do Japão, em Tóquio. Os seus restos foram sepultados no cemitério de Aoyama, perto do túmulo do dono.
O que significa o nome do deus asteca Xólotl?▾
Em náuatle, Xólotl pode traduzir-se por «gémeo», «cão» ou «escravo». Por isso, é também o protetor dos gémeos.
Quais são os próximos anos do Cão no horóscopo chinês?▾
O Cão volta de doze em doze anos. Os últimos anos do Cão foram 1994, 2006 e 2018; os próximos serão 2030, 2042 e 2054.
