Significado do rato: deuses, fábulas e dentes de leite

Dos selos dos CTT a Apolo, Ganesha, o zodíaco chinês e «a montanha pariu um rato»: o que simboliza o rato, de onde vêm esses sentidos e o que é apenas crença recente.
A 14 de setembro de 2018, os CTT Correios de Portugal puseram um rato nas cartas do país: uma emissão de selos para celebrar os 90 anos do Mickey, com carimbos de primeiro dia em Lisboa, no Porto, no Funchal e em Ponta Delgada. Na brochura da emissão, os CTT recordam uma frase de Walt Disney: «espero que possamos nunca perder de vista uma coisa: é que tudo começou com um rato». Nada mau para um animal que costumamos enxotar da despensa.
O significado do rato nasce desse contraste. Pequeno e discreto, simboliza sobretudo a astúcia dos pequenos perante os grandes, a agilidade, a prudência e um rito de passagem da infância. Os gregos associavam-no a Apolo, na Índia é a montada de Ganesha, na China abre o zodíaco e, em português, ainda se diz que «a montanha pariu um rato». Eis de onde vêm estes sentidos, e o que se pode realmente afirmar sobre cada um.
O que simboliza o rato?
Não há um significado único, válido em toda a parte. Conforme a história, o rato é a praga de que um deus protege, a montada de um deus indiano, o primeiro animal do zodíaco chinês ou o herói de fábulas antigas. Estes são os sentidos que se podem ligar a textos e tradições concretas:
- a astúcia do mais pequeno que vence alguém mais forte;
- a agilidade de quem passa por onde os poderosos não passam;
- a prudência, que muitas vezes se aprende à própria custa;
- a desilusão, quando grandes promessas dão um resultado minúsculo;
- um rito de passagem da infância, ligado aos dentes de leite.
Cada leitura depende do relato, do culto ou do costume que a sustenta. E as mais antigas levam-nos aos templos.
O rato ao lado dos deuses
Um rato num santuário parece fora de lugar. No entanto, duas grandes tradições puseram-no ao lado de um deus, cada uma à sua maneira.
Apolo Smintheus, protetor das colheitas
Logo nos primeiros versos da Ilíada, o sacerdote Crises invoca Apolo com um nome estranho: Smintheus. O epíteto viria de sminthos, uma palavra grega regional que designava o rato, embora outra hipótese o ligue a uma cidade chamada Sminthe. Na Tróade, na atual Turquia, perto da aldeia de Gülpınar, havia um santuário dedicado a Apolo Smintheus. Ali, o deus era honrado como protetor contra uma invasão de ratos que assolava a região. Neste caso, o rato é a praga e o deus é quem livra dela os camponeses.
Ganesha e a sua pequena montada
Na Índia, Ganesha, o deus com cabeça de elefante que remove os obstáculos, não anda a cavalo nem de carruagem. A sua montada é um rato, chamado Mushika (muśika). O artigo Ganesha da Wikipédia lembra uma das leituras desta dupla: o rato representa a mente e os seus desejos, e «Ganesha, guiando sobre o rato, se torna o mestre (e não o escravo) dessas tendências».
Um deus imenso sobre um animal minúsculo: a imagem faz sorrir, mas a mensagem é séria. Quem conduz os seus desejos não se deixa conduzir por eles. A outra metade do par tem a sua própria história, contada no nosso artigo sobre o simbolismo do elefante.



O primeiro dos doze animais chineses
No zodíaco chinês, o primeiro signo escreve-se 鼠 (shǔ), um carácter que designa o rato. Conta a lenda que o Imperador de Jade organizou uma grande corrida. Para atravessar o rio, o pequeno roedor subiu para o dorso do boi e, mesmo antes da chegada, saltou-lhe à frente. Ganhou pela astúcia, não pela força, e abriu assim o ciclo dos doze animais. O último ano do Rato começou em 2020; o próximo será em 2032.
«A montanha pariu um rato», e outras lições de fábula
Em Portugal, quando uma grande promessa acaba em pouca coisa, diz-se que a montanha pariu um rato. A expressão vem de longe. Uma montanha geme como se fosse dar à luz algo enorme e, no fim, nasce um rato. A história já se contava em Esopo e em Fedro, e o poeta latino Horácio resumiu-a num verso da sua Arte Poética: parturiunt montes, nascetur ridiculus mus, «as montanhas estão em trabalho de parto, nascerá um ridículo rato». Séculos depois, La Fontaine retomou a mesma fábula. Aqui, o rato é a imagem da desilusão.
O fabulista francês gostava de roedores, e duas outras fábulas suas dão ao rato rostos bem diferentes.
O ratinho que julgava pelas aparências
Em Le Cochet, le Chat et le Souriceau (O Galinho, o Gato e o Ratinho, livro VI), um ratinho descobre o mundo. Assusta-se com um galo agitado e acha encantador um gato de ar meigo. A mãe desengana-o logo: aquele gato tão doce é o inimigo de toda a família. A moral, em tradução livre, diz: «Enquanto viveres, não julgues as pessoas pela cara». O rato torna-se símbolo da prudência, a que se aprende. O gato, esse, tem melhor fama noutras culturas, como mostra o nosso artigo sobre o gato da sorte.
A ratinha que voltou às origens
Mais surpreendente ainda é La Souris métamorphosée en fille (A Ratinha Transformada em Rapariga, livro IX), que vem de uma coletânea indiana que La Fontaine atribui a Pilpay. Um brâmane recolhe uma ratinha caída do bico de uma coruja e transforma-a em rapariga. Quer dar-lhe o mais poderoso dos maridos. O Sol manda-o à nuvem, a nuvem ao vento, o vento à montanha e a montanha ao rato. A rapariga escolhe o rato. Conclusão do fabulista, em tradução livre: «Somos sempre do lugar de onde viemos».
Dentes de leite: em Portugal passa a fada
Em Portugal, quando cai um dente de leite, guarda-se debaixo da almofada: segundo a tradição, a fada dos dentes vem de noite e troca-o por uma moeda ou um pequeno presente. Noutros países, quem passa é um rato.
- em França, na Bélgica ou na Suíça, é a petite souris, a ratinha, que poderia vir de um conto da baronesa d'Aulnoy, La Bonne Petite Souris: uma fada transforma-se em ratinha para ajudar uma rainha contra um rei cruel e, escondida debaixo da almofada do rei, faz-lhe cair os dentes;
- aqui ao lado, em Espanha, é o Ratoncito Pérez, imaginado pelo escritor Luis Coloma para o jovem rei Afonso XIII, que tinha perdido o primeiro dente;
- na Catalunha, são uns anjinhos, els angelets;
- no Magrebe, a criança vira-se para o sol e pede para trocar o seu «dente de burro» por um «dente de gazela».
Porquê um rato? Segundo uma crença antiga, se a criança desse os dentes caídos a um roedor, receberia dentes tão fortes como os dele. Fada ou ratinha, o sentido é o mesmo: marca uma passagem, o momento em que a criança cresce e deixa partir um bocadinho de si, em troca de uma surpresa.
Do ecrã de cinema à secretária
No século XX, o rato muda de imagem. A 18 de novembro de 1928, no Colony Theatre de Nova Iorque, estreou Steamboat Willie, de Walt Disney e Ub Iwerks, um desenho animado sonoro. O herói, conta o artigo Mickey Mouse da Wikipédia, começou por se chamar Mortimer, e foi Lillian, a mulher de Walt Disney, quem sugeriu o nome Mickey. O rato deixa de ser a praga dos celeiros: torna-se um herói de quem todos gostam, ao ponto de, noventa anos depois, ter direito a selos portugueses.
Depois, chegou às nossas secretárias. O engenheiro Douglas Engelbart criou um pequeno aparelho para mover um cursor no ecrã; o primeiro protótipo era uma caixinha de madeira com um único botão. Foi apresentado ao público a 9 de dezembro de 1968. O nome inglês, mouse, viria do fio que saía por trás, como uma cauda. No Brasil ficou mouse; em Portugal, segundo o artigo Rato (informática) da Wikipédia, diz-se simplesmente rato. Sempre que clica, tem um pequeno rato na mão.
Sonhar com um rato: tradição ou crença?
Em Portugal, sonhar com ratos é uma das pesquisas mais frequentes sobre este animal. Na internet, encontram-se páginas sobre o rato como «animal de poder» ou «totem», que ensinaria a prestar atenção aos pormenores, e outras sobre o que significa ver um em casa ou sonhar com ele. São leituras recentes e pessoais: não aparecem nas tradições antigas examinadas para este artigo. Aqui, «documentado» quer dizer que um relato, um texto ou uma tradição identificável permite ligar o sentido a uma fonte. A tabela põe ordem nas coisas:
| Ideia | De onde vem | Estatuto |
|---|---|---|
| O rato astuto que chega primeiro | Lenda do zodíaco chinês | Relato tradicional, documentado |
| O rato como imagem dos desejos dominados | Mushika, montada de Ganesha | Tradição hindu, documentada |
| O rato como praga de que um deus protege | Apolo Smintheus, na Tróade | Culto antigo, documentado |
| Prudência e desilusão | Esopo, Fedro, Horácio, La Fontaine | Literatura, documentada |
| O rato dos dentes de leite | Conto da baronesa d'Aulnoy, folclore | Tradição popular, origem provável |
| O rato como animal de poder, atento aos pormenores | Sites de espiritualidade atuais | Interpretação atual, não atestada nas fontes examinadas |
| Ver um rato ou sonhar com ele | Livros e sites de interpretação de sonhos | Interpretação pessoal |
O mesmo critério vale para todos os animais. O nosso artigo sobre a simbologia dos animais explica como nascem estes significados, entre relatos antigos e crenças recentes.
Um rato na lapela

Pequeno e um pouco traquinas, o rato dá uma joia cheia de graça. Os nossos broches de rato mostram-no de pé, com um vestido estampado de corte trapézio e duas pernas montadas em argolas, que acompanham os seus movimentos. São três personagens:
- uma ratinha de cabeça azul intensa, com vestido branco de flores azuis que lembram a faiança;
- uma ratinha castanho-chocolate com um lacinho cor de laranja e um vestido de círculos e rosetas multicolores;
- um rato de cabeça preta e focinho prateado, com vestido de flores cinzentas, cor de laranja e vermelho-escuro.
Os dois primeiros são em aço de cor dourada e o terceiro em aço de cor prateada. Para os combinar com as suas outras joias, veja também os nossos broches dourados e os nossos modelos prateados. Estes ratos prendem-se com um íman e uma placa colocada do lado de dentro da roupa, como todos os nossos fechos de íman.
Por ser um motivo pequeno, o rato vê-se melhor sobre um fundo liso: a lapela de um blazer, a gola de um casaco, o ombro de uma camisola. Deixe algum espaço por baixo para que as pernas fiquem soltas, longe de botões e de costuras. O nosso guia sobre como usar um broche mostra outros sítios onde o pôr, peça a peça.
Oferecer um rato

Um broche de rato pode agradar a pessoas muito diferentes: a quem coleciona motivos de animais, a quem cresceu com o Mickey e os ratos dos livros infantis, a quem gosta de juntar um pormenor divertido a uma roupa sóbria. E a sua história ainda dá para um piscar de olho:
- para uma mãe ou um pai que já fez de fada dos dentes numa ou noutra noite;
- para uma amiga nascida num ano do Rato, se ela se interessar por astrologia chinesa;
- para quem promete sempre muito, com «a montanha pariu um rato» escrito no cartão, em jeito de brincadeira.
Se preferir outros animais, espreite os nossos broches de animais, ou todos os nossos broches.
O rato em resumo
| Tradição | Onde aparece o rato | O que diz |
|---|---|---|
| Grécia antiga | Apolo Smintheus, Ilíada | A praga de que o deus protege |
| Índia | Mushika, montada de Ganesha | O domínio dos desejos |
| China | Primeiro signo do zodíaco | A astúcia que vence a força |
| Fábulas | Esopo, Horácio, La Fontaine | A prudência, a desilusão, as origens |
| Portugal | «A montanha pariu um rato» | Muito barulho, pouco resultado |
| Folclore | A ratinha e a fada dos dentes de leite | Um rito de passagem da infância |
| Século XX | Mickey (1928), o rato de Engelbart (1968) | A simpatia, o dia a dia |
Minúsculo como é, o rato passou pelos templos, pelas fábulas, pelas almofadas das crianças, pelo cinema e pelas nossas secretárias, e até pelos selos do correio. Talvez seja essa a sua verdadeira mensagem: os mais pequenos têm muitas vezes mais recursos do que parece.
Perguntas frequentes
O que simboliza o rato?▾
Sobretudo a astúcia dos pequenos perante os grandes, a agilidade, a prudência e um rito de passagem da infância. Conforme o relato, também pode representar uma praga ou uma desilusão.
Qual é o significado espiritual do rato?▾
As leituras que fazem do rato um animal de poder ou um totem, ligado à atenção aos pormenores, são interpretações espirituais recentes: não aparecem nas tradições antigas examinadas aqui. As tradições documentadas ligam-no a Ganesha na Índia, a Apolo na Grécia e ao primeiro signo do zodíaco chinês.
O que quer dizer «a montanha pariu um rato»?▾
A expressão aplica-se a grandes promessas, ou a muito barulho, que acabam num resultado minúsculo. Vem de uma fábula contada por Esopo e Fedro, resumida por Horácio no verso parturiunt montes, nascetur ridiculus mus e retomada por La Fontaine.
Que deus está ligado ao rato?▾
Na Índia, o rato Mushika é a montada de Ganesha, o deus com cabeça de elefante, e representa os desejos que o deus domina. Na Grécia antiga, Apolo tinha o epíteto de Smintheus, ligado à palavra sminthos, o rato.
Porque é que noutros países é um rato que leva os dentes de leite?▾
Segundo uma crença antiga, a criança que desse os dentes caídos a um roedor receberia dentes tão fortes como os dele. A ratinha francesa poderia vir de um conto da baronesa d'Aulnoy, La Bonne Petite Souris. Em Portugal, quem passa é a fada dos dentes.
