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Simbolismo do peixe: do bacalhau à carpa feita dragão

Por Ma-Broche.fr· 12 de outubro de 2026
Simbolismo do peixe: do bacalhau à carpa feita dragão

Sardinha em junho, bacalhau na consoada, sinal dos primeiros cristãos, carpa que se torna dragão no Japão: o que o peixe simboliza de uma cultura para outra.

Junho, em Lisboa. A cidade festeja Santo António, e nos bairros de Alfama, da Graça ou da Mouraria a tradição manda comer caldo verde e sardinha assada. Por cá, a sardinha de junho e o bacalhau da consoada ligam o peixe a duas festas à mesa. Noutras paragens, o mesmo animal traz mensagens bem diferentes. O simbolismo do peixe muda de cultura para cultura: fé, abundância, perseverança ou salvação.

O que simboliza, então, o peixe? Depende de quem olha. Para os primeiros cristãos, é um sinal de fé: em grego, a palavra que designa o peixe reúne as iniciais de «Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador». Na China, é um voto de abundância, porque «peixe» se pronuncia como a palavra que quer dizer «abundância». No Japão, a carpa que sobe a corrente encarna a perseverança. Acrescente-se Vishnu, que toma a forma de um peixe para salvar a humanidade do dilúvio, uma deusa e o filho transformados em constelação e uma velha partida francesa do 1.º de abril: o peixe tem muito para contar.

Em cada tradição, vamos separar o que dizem os textos e os objetos daquilo que cada um pode ver neles.

Sardinha em junho, bacalhau no Natal

Comecemos por casa. A 13 de junho, Lisboa festeja Santo António com as marchas populares, que representam vários bairros da cidade, e com a procissão que sai da Igreja de Santo António, em Alfama. A página da Wikipédia dedicada aos Santos Populares lembra o que se come nessas noites: caldo verde e sardinha assada.

Seis meses depois, é outro peixe que ocupa o centro da mesa. Na noite de 24 de dezembro, a tradição portuguesa põe bacalhau na mesa da consoada, cozido ou assado no forno; o prato típico é o bacalhau com batatas e couves. Depois da ceia, é tradição distribuir os presentes de Natal.

Nestes dois costumes portugueses, o peixe acompanha momentos de festa e de família. Noutros lugares, tornou-se um símbolo, e a tradição diz até que serviu de sinal secreto.

Ichthys: uma palavra grega, uma profissão de fé

Sinal do peixe formado por dois arcos, gravado numa pedra antiga
Bastam dois arcos para desenhar o ichthys.

Talvez já o tenha visto na traseira de um carro: dois arcos que, juntos, desenham um peixe. É o mais célebre de todos os peixes simbólicos.

Cinco iniciais gregas

Em grego antigo, «peixe» diz-se ichthys (ἰχθύς). Os primeiros cristãos leram nesta palavra uma mensagem escondida, letra a letra:

  • I de Iêsous, Jesus;
  • CH de Christos, Cristo;
  • TH de Theou, de Deus;
  • Y de Huios, Filho;
  • S de Sôtêr, Salvador.

Uma só palavra, e cabe nela toda uma profissão de fé.

O sinal secreto, segundo a tradição

O ichthys torna-se um sinal de identificação dos cristãos. Conta a tradição que, no tempo das perseguições, os cristãos o usavam como código para se reconhecerem e que era desenhado nas paredes de Roma antes da Páscoa, para indicar o caminho das criptas. A história é bonita, mas assenta apenas na tradição.

Os autores antigos também recorrem à imagem, e isso ficou por escrito. Tertuliano compara os crentes a pequenos peixes que tiram o nome do ichthys e nascem na água. Santo Agostinho, n’A Cidade de Deus, comenta o acróstico e vê nele um nome místico do Salvador. E Clemente de Alexandria, no Pedagogo, cita o peixe entre os motivos que os cristãos podem usar. Trazer um peixe consigo não é, portanto, coisa de agora.

Das criptas aos para-choques

Nos anos 1970, o símbolo ganha novo fôlego nos Estados Unidos com o Jesus Movement. Desde então, vê-se em pendentes, alfinetes e carros, como sinal de pertença à fé cristã.

Alimentar e salvar: o peixe dos Evangelhos e o de Matsya

Cinco pães e dois peixes

Se o peixe ganhou tanto espaço entre os cristãos, é também porque aparece muitas vezes nos Evangelhos. O episódio mais conhecido é o da multiplicação dos pães. Com cinco pães e dois peixes, Jesus alimenta uma multidão de cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. Os quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João, relatam a cena.

Ainda hoje, a Igreja da Multiplicação, em Tabgha, ergue-se perto do lugar onde a tradição situa o milagre. Dois peixes que chegam para alimentar milhares de pessoas: difícil encontrar imagem mais bonita da partilha.

Matsya, o peixe que salvou a humanidade

Do outro lado do mundo, há um peixe que não alimenta: salva. No hinduísmo, Matsya, cujo nome significa «peixe» em sânscrito, é geralmente apresentado como o primeiro avatar de Vishnu, como lembra a Wikipédia.

O relato mais antigo encontra-se no Shatapatha Brahmana. Tudo começa com um peixinho que Manu encontra num rio. O peixe avisa-o: aproxima-se um dilúvio, é preciso construir um barco. Quando as águas sobem, o peixinho, agora gigantesco, guia o barco até ao alto do Himalaia. Manu, a família e vários animais salvam-se. O Mahabharata conta uma versão próxima, em que Manu leva consigo «a semente de tudo o que vive na terra». O relato já foi comparado ao da arca de Noé.

Alimentar uma multidão, atravessar um dilúvio: nos dois casos, o peixe surge quando a vida está em jogo.

China: um jogo de palavras para desejar abundância

Peixe vermelho de papel recortado junto a tangerinas e peónias, decoração de Ano Novo chinês
Na China, um peixe deseja abundância.

Na China, o peixe não fala de fé, mas de prosperidade. E tudo depende de um jogo de palavras.

O carácter 魚, «peixe», pronuncia-se yu. O carácter 餘, que quer dizer «abundância» ou «excedente», também se pronuncia yu. Daí uma fórmula de votos: lian nian you yu (連年有餘), «prosperidade e abundância ano após ano». Desenhar um peixe é, portanto, desejar que nunca falte nada em casa.

A École française d’Extrême-Orient, um instituto francês de investigação sobre a Ásia, conserva uma estampa popular que ilustra este voto. Gravada em madeira no século XX por Yang Luoshu, em Yangjiabu, na província de Shandong, mostra uma mulher com peónias e uma criança que segura um peixe. Formava par com outra imagem: as duas eram coladas nas portas do quarto da nora para celebrar o Ano Novo.

Japão: a carpa que sobe o rio até ao céu

Carpas koinobori preta, vermelha e azul a flutuar ao vento numa vara de bambu
A 5 de maio, as carpas de tecido nadam no vento.

Todos os anos, a 5 de maio, carpas de tecido flutuam ao vento no Japão, presas a longas varas de bambu. São as koinobori, içadas para o Kodomo no hi, o Dia das Crianças. A festa substituiu o antigo Tango no sekku, celebrado no quinto dia do quinto mês lunar.

Porquê carpas? Por causa de uma lenda chinesa, retomada no Japão: as carpas que sobem o rio Amarelo acabariam por voar para o céu, transformadas em dragões. As koinobori celebram assim a força e a perseverança das carpas que sobem rios e cascatas contra a corrente.

A mensagem é simples e fala a toda a gente: quem sobe a corrente acaba por se elevar. De todos os sentidos do peixe, é talvez o mais fácil de oferecer, e vários modelos da nossa seleção de broches de peixe prestam-se bem a isso.

Dois peixes no céu, dois peixes da sorte

O peixe chegou às estrelas. A constelação de Peixes desenha dois peixes ligados por uma corda. O autor latino Higino, retomando fontes gregas, conta a sua origem. Perseguidos pelo monstro Tífon nas margens do Eufrates, Afrodite e o filho, Eros, transformam-se em peixes. As caudas ficam atadas por uma corda, para que não se percam nas águas.

Pode ver-se aqui um laço que resiste ao perigo: o de uma mãe e de um filho presos um ao outro para não se perderem.

Outro par de peixes traz boa sorte: um casal de peixes de cor dourada figura entre os oito símbolos auspiciosos, o ashtamangala. Originalmente, representam dois rios sagrados, o Ganges e o Yamuna. No budismo, evocam a capacidade dos seres de avançar para a libertação sem se afogarem no samsara, o ciclo dos renascimentos. O ramo shvetambara do jainismo também os conta entre os seus oito símbolos.

Avançar sem se deixar engolir: voltamos à ideia da carpa japonesa, e pensamos também na tartaruga, símbolo de longevidade.

O poisson d’avril, uma partida bem francesa

Peixe de papel colorido preso nas costas de um casaco bege, partida francesa do 1.º de abril
Em França, a partida do 1.º de abril tem forma de peixe.

Em França, o peixe tem direito a um dia só seu, ou quase. No 1.º de abril, prende-se às escondidas um peixe de papel nas costas de um amigo, antes de gritar «Poisson d’avril!», literalmente «peixe de abril».

De onde vem o costume? Ninguém sabe ao certo. A explicação mais divulgada invoca o édito de Roussillon, assinado por Carlos IX em 1564, que fixou o início do ano a 1 de janeiro. Quem continuasse a festejar o ano novo na data antiga teria passado a ser alvo de brincadeiras. Bonita história, mas não bate certo com as datas: a expressão poisson d’avril aparece já em 1466, em Pierre Michault, e depois em 1508, em Eloy d’Amerval, muito antes do édito. O sentido de partida do 1.º de abril só está documentado no século XVII.

Há outras pistas. O folclorista Alan Dundes fala de uma mistura de tradições: antigos ritos de fertilidade, o momento em que o Sol deixa o signo de Peixes e o fim da Quaresma, período em que se comia peixe. Em português, a data é conhecida como Dia da Mentira; o peixe de papel nas costas, esse, é um costume francês.

O peixe tem um significado espiritual?

Muita gente procura o significado do peixe numa dimensão espiritual. Eis o que dizem as grandes tradições:

  • na tradição cristã do ichthys, a palavra grega condensa uma profissão de fé em Jesus Cristo, e Tertuliano compara os crentes a pequenos peixes nascidos na água;
  • no relato hindu de Matsya, o peixe é o salvador que guia a humanidade através do dilúvio;
  • no budismo, o peixe nada rumo à libertação sem se afogar no ciclo dos renascimentos.

O fio comum? A água. O peixe vive onde o ser humano se afogaria, e avança aí sem esforço. Para lá destas tradições, se um peixe o faz pensar na liberdade, na viagem ou na calma do mar, essa leitura é pessoal, e pertence-lhe. O peixe não é o único animal que muda de sentido de um país para outro: descubra, por exemplo, a história do gato da sorte japonês.

Oferecer um peixe: ocasiões, palavras e maneiras de o usar

Para que ocasiões

Com todas estas histórias, um peixe acompanha muitos momentos:

  • os Santos Populares, para quem associa o peixe às noites de festa em Lisboa;
  • um Ano Novo ou uma casa nova, para desejar abundância «ano após ano», como na China;
  • um exame, um emprego novo ou uma fase difícil, a pensar na carpa que sobe a corrente;
  • uma mãe e um filho, num piscar de olho aos dois peixes de Afrodite e Eros, atados para nunca se perderem;
  • alguém nascido sob o signo de Peixes;
  • uma pessoa crente, para quem o ichthys mantém todo o seu sentido.

Algumas palavras para o cartão

  • «Abundância, ano após ano.»
  • «Continue a subir a corrente.»
  • «Inseparáveis, como os dois peixes do céu.»

Um peixe na lapela

Um broche de peixe não teme nem a corrente nem o 1.º de abril. Entre os nossos broches de bijuteria, vários peixes ecoam estas histórias. Dois peixes coral e rosa, a nadar lado a lado, lembram o casal do céu. Mais gráfico, um peixe em forma de espinha, em aço de cor dourada com superfícies e strass pretos, joga com os contrastes. Por fim, um peixe azul e branco com motivos geométricos, em aço de cor prateada, faz pensar mais no litoral. Os três têm fecho magnético.

Numa camisola às riscas, na lapela de um blusão de ganga ou num casaco azul-marinho, um peixe encontra naturalmente o seu lugar. E se gosta de outros bichos além do peixe, espreite os restantes motivos de animais da coleção.

Simbolismo do peixe em resumo

De uma tradição para outra, o peixe muda de mensagem. A tabela junta essas mensagens lado a lado:

Tradição ou fonteO que o peixe representa
Mesa portuguesa (Santos Populares, consoada)Festa e família: sardinha assada em junho, bacalhau a 24 de dezembro
Primeiros cristãos (acróstico ichthys)Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador; segundo a tradição, um código para se reconhecerem
Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas, João)A partilha: cinco pães e dois peixes para uma multidão
Hinduísmo (Matsya, Shatapatha Brahmana)A salvação: o peixe que guia Manu através do dilúvio
China (fórmula lian nian you yu)A abundância, graças a um jogo de palavras com yu
Japão (koinobori de 5 de maio)A força e a perseverança da carpa que se torna dragão
Constelação de Peixes (Higino)Um laço que resiste ao perigo: Afrodite e Eros atados um ao outro
Budismo (ashtamangala)A libertação, sem se afogar no ciclo dos renascimentos
Poisson d’avril (França, Pierre Michault, 1466)Uma partida francesa de origem incerta, documentada desde o século XV

Perguntas frequentes

Quais são as datas do signo de Peixes?▾

O signo de Peixes corresponde ao período de 19 de fevereiro a 20 de março. Tem o nome da constelação dos dois peixes atados por uma corda.

O que significa o nome da estrela Alrescha?▾

Alrescha, a estrela alfa da constelação de Peixes, tem um nome de origem árabe que significa «o Nó»: o da corda que liga as caudas dos dois peixes na representação do céu.

Qual era o primeiro sentido da expressão francesa «poisson d’avril»?▾

No texto mais antigo conhecido que a usa, o Doctrinal du temps présent de Pierre Michault (1466), um «poisson d’avril» é um alcoviteiro, aquele que leva as cartas de amor do seu senhor. O sentido de partida só aparece no século XVII, em Jean de Labrune, em 1691.

Há uma segunda multiplicação dos pães nos Evangelhos?▾

Sim. Mateus e Marcos relatam um segundo episódio: com sete pães e alguns peixes, Jesus alimenta quatro mil homens, sem contar mulheres e crianças. Lucas e João relatam apenas o primeiro milagre, o dos cinco pães e dois peixes.

O que representam as cores das carpas koinobori?▾

A carpa preta representa o pai. A carpa vermelha representava antigamente o filho mais velho e hoje representa, na maioria das vezes, a mãe. Junta-se uma carpa por cada outro filho.

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