Coruja e mocho: o que significa a ave de Atena?

Em português, o mocho deve o nome àquilo que lhe falta. Ave de Atena, de Minerva e de Hegel, mas também de mau agouro em Roma: eis o que simboliza a coruja.
Em português, há uma ave que deve o nome àquilo que lhe falta. Chama-se mocho, e mocho quer dizer, à letra, «sem cornos»: a ave tem a cabeça lisa, sem as penas salientes dos bufos.
Qual é o significado da coruja? Depende de quem conta a história. Na Grécia antiga, o mocho-galego era a ave de Atena e o símbolo da sabedoria e do conhecimento. Em Roma e na Idade Média, o seu grito noturno anunciava a morte ou a desgraça. No Japão, a coruja-do-mato é uma mensageira dos deuses e a coruja-das-torres, um demónio. Por trás de leituras tão opostas há um facto simples: esta ave vê com muito pouca luz e caça de noite.
Uma ave sem cornos, uma deusa e um filósofo: sigamos a coruja, de Atenas a Roma, da noite até à lapela de um casaco.
Coruja, mocho ou bufo: o que dizem os nomes
Antes dos símbolos, os nomes. A ciência não separa estas aves como a língua o faz: para os zoólogos, corujas e mochos pertencem à mesma ordem, a das estrigiformes, as aves de rapina noturnas. Muitas espécies têm penachos, as chamadas «falsas orelhas», que são apenas ornamentais.
A língua portuguesa faz a separação à sua maneira. O Wikcionário explica a origem da palavra mocho: é aparentada com o latim mutilus, «cortado», e a ave chama-se assim por ser «mocha, rapada, descornada», para a distinguir dos bufos, que têm penas salientes na cabeça. O mesmo dicionário define o mocho, numa só linha, como uma ave de rapina noturna de olhos amarelos.
Em francês, a fronteira passa pelo mesmo sítio: o hibou tem esses penachos e a chouette não, e a Wikipédia em francês lembra que se trata de vocabulário do dia a dia, não de uma categoria científica.
O mais célebre dos mochos é pequeno: o mocho-galego, também chamado chio, que a Wikipédia em português inclui entre as aves de Portugal. O nome científico, Athene noctua, já anuncia a deusa que o acompanha.
Em resumo: coruja, mocho e bufo são nomes comuns, não categorias científicas. A zoologia reúne estas aves na ordem dos estrigiformes. Daqui em diante, diremos «coruja» para todas estas aves, e só daremos o nome da espécie quando fizer diferença.
Um corpo feito para a noite

Se estas aves despertam curiosidade desde a Antiguidade, é antes de mais porque vivem enquanto dormimos. São aves de hábitos sobretudo noturnos, e o corpo inteiro parece feito para a escuridão.
Olhos que apanham a luz
A coruja tem grandes olhos virados para a frente, como os nossos. Deixam entrar duas a três vezes mais luz do que o olho humano. Mas são fixos: encaixados num anel ósseo, não se mexem dentro das órbitas.
Uma cabeça que roda 270 graus
Para olhar para o lado, a coruja roda a cabeça inteira. O pescoço tem catorze vértebras, o dobro das nossas: assim consegue rodá-la 270 graus.
Um ouvido apurado e um voo calado
O ouvido é muito apurado, melhor do que o das outras aves. Em algumas corujas pequenas, os ouvidos estão colocados de forma assimétrica, um mais alto do que o outro: esta disposição permite localizar a presa com grande precisão.
Depois, há o voo. O bordo dianteiro das asas tem uma franja de penas rígidas, alinhadas como os dentes de um pente, que abafa o ruído do ar. A coruja aproxima-se assim das presas sem ser ouvida.
Ver no escuro, ouvir o invisível, chegar sem fazer barulho: percebe-se que, conforme a época, tenhamos feito dela uma figura de sabedoria ou uma ameaça.
A coruja de Minerva: das moedas de Atenas a Hegel

Na Antiguidade, o mocho-galego é o atributo de Atena, deusa da sabedoria, que leva um ao ombro.
Moedas com uma coruja
Atenas parece ter adotado a ave para mostrar a sua fidelidade à deusa protetora da cidade. Depois de 510 a.C., a coruja torna-se comum nas moedas atenienses. O tetradracma ganhou a alcunha de glaux, «pequena coruja», e no dia a dia as dracmas eram simplesmente as glaukes, «as corujas». Um exemplar dessas moedas foi cunhado aproximadamente entre 480 e 420 a.C.
Daí nasce uma imagem que atravessa os séculos: a coruja torna-se símbolo do conhecimento, da perspicácia e da erudição. Partilha essa fama com um gigante de outro género, cujas lendas contamos no artigo sobre o que simboliza o elefante.
Minerva, e depois Hegel
Os romanos herdam o símbolo: Minerva, a deusa que corresponde a Atena, tem também a sua coruja. Muito mais tarde, em 1820, o filósofo alemão Hegel põe-na numa frase célebre do prefácio dos Princípios da Filosofia do Direito. Na tradução citada pela Wikipédia em português sobre a coruja de Atena: «A coruja de Minerva levanta o seu voo apenas quando as sombras da noite estão a se reunir.» Para Hegel, a coruja é a própria filosofia.
Entre Roma e Hegel, na Idade Média, ela já era a figura do letrado, do saber e de quem medita afastado do mundo. Ainda hoje aparece nos brasões de muitas escolas e universidades.
Ave de mau agouro? A face noturna da coruja

Mas a mesma noite que lhe dá a sabedoria dá-lhe também a má fama. A Wikipédia em português resume-o: pelo hábito noturno, pelo voo silencioso e pelos seus cantos, as corujas já foram vistas como símbolos de mau agouro. Quem vê no escuro também pode andar à espreita nele.
Roma: um grito no telhado
No folclore romano, a coruja que pia pousada num telhado anuncia uma morte próxima, e o grito do bufo não promete nada de melhor. As aves de rapina noturnas voam de noite e fazem ninho em lugares de difícil acesso: não foi preciso mais para as tornar um símbolo de morte.
Em português, a coruja-das-torres tem nomes que falam por si: entre os que a Wikipédia regista estão coruja-da-igreja e rasga-mortalha.
Idade Média: pregada à porta
Na Idade Média, a coruja passa por astuta e enganadora. A razão é simples: caça de noite, quando as presas quase não veem, enquanto ela vê com clareza. Para afastar o azar, chega-se a pregá-la à porta de casa. A mesma época vê nela um reflexo da morte e a encarnação do mal, sem deixar de a ter como figura do sábio.
No resto do mundo
- No antigo Egito, o bufo evoca o frio, a noite e a morte.
- Entre os astecas, a coruja é o símbolo do deus do mundo inferior.
- Na China, as aves de rapina noturnas são associadas ao raio.
- No Japão, tudo depende da espécie: as corujas-das-torres são demoníacas, as corujas-do-mato são mensageiras dos deuses.
O Japão resume bem a história: duas aves da mesma noite, uma temida, a outra esperada.
Significado espiritual da coruja: o documentado e a crença

Muitas vezes a pergunta nasce de um momento concreto: uma silhueta ao fim da tarde, um piar debaixo da janela, e a vontade de saber se aquilo «quer dizer» alguma coisa.
Convém separar duas coisas:
- o que está documentado: a coruja caça de noite, vê com pouca luz, ouve a presa e voa sem ruído. Se está ali, o mais provável é que esteja a caçar;
- o que pertence à crença: conforme a tradição que se escute, a mesma ave evoca a sabedoria (Atenas), uma desgraça (Roma, a Idade Média) ou uma mensagem dos deuses (a coruja-do-mato no Japão).
A coruja não tem, portanto, um único significado espiritual. Nenhuma fonte diz qual destas leituras é a verdadeira. Estas leituras dizem mais sobre o que cada época admirava ou temia do que sobre a ave. Se uma coruja lhe fala de calma, de atenção ou de saber olhar as coisas com distanciamento, essa leitura é sua.
Para o poeta francês Baudelaire, estas aves eram mestras. Em «Les Hiboux», um poema de As Flores do Mal, os seus bufos ficam imóveis debaixo dos teixos negros, como deuses estrangeiros, de olho vermelho aceso, a meditar. A atitude deles, conclui, ensina o sábio a temer neste mundo le tumulte et le mouvement: o tumulto e o movimento. A ave noturna como mestra de paciência.
Oferecer uma coruja: a quem e com que palavras
A quem
Com estas histórias na cabeça, a coruja pode acompanhar muitas pessoas e ocasiões:
- um fim de curso, um exame, o regresso às aulas, a pensar na ave dos brasões universitários;
- uma professora, uma bibliotecária, uma grande leitora, porque é a ave do conhecimento;
- uma amiga noctívaga, que vê claro quando os outros dormem;
- uma pessoa calma, que leva o seu tempo a pensar, como os bufos de Baudelaire;
- quem gosta da natureza e de observar aves.
Palavras para o cartão
- «Para quem vê claro, mesmo de noite.»
- «Que o mocho de Atena olhe pelos seus exames.»
- «Um pouco de sabedoria para levar na lapela.»
A coruja em broche
Na nossa loja há uma coruja à sua espera, e pouco se parece com a ave inquietante das lendas. Faz parte dos nossos broches de bijuteria e está pousada num ramo vermelho com quatro flores. Cabeça castanho-acinzentada, grandes olhos cor de creme com contorno dourado, asas castanhas com pintas cor de creme, barriga cor de creme cheia de flores: parece mais saída de um conto do que das lendas da noite. Um laço vermelho com pintas verdes completa o conjunto. É de esmalte sobre aço de cor dourada e prende-se com um fecho magnético.
Sobre um sobretudo azul-marinho, um casaco de malha cru ou um blazer camel, as cores sobressaem bem. Vai encontrá-la na nossa seleção de broches de coruja. E se gosta de aves em geral, descubra outros modelos entre os broches em forma de pássaro.
A coruja em resumo
Uma mesma ave, leituras opostas. Num relance:
| Tradição ou fonte | Relato ou figura | O que a coruja representa |
|---|---|---|
| Língua portuguesa | O mocho, «sem cornos», e o bufo de penas salientes | Uma distinção da língua, não da ciência |
| Ciência (estrigiformes) | Olhos, ouvido, voo silencioso | Uma caçadora da noite |
| Grécia antiga | O mocho-galego de Atena, as «corujas» de Atenas | A sabedoria, o conhecimento |
| Roma | A coruja de Minerva, o grito no telhado | A sabedoria, mas também a morte anunciada |
| Idade Média | A ave pregada à porta, o letrado | O azar, e o saber |
| Antigo Egito | O bufo | O frio, a noite, a morte |
| Astecas | O deus do mundo inferior | O mundo dos mortos |
| Japão | A coruja-das-torres e a coruja-do-mato | Um demónio, ou uma mensageira dos deuses |
| Hegel (1820) | A coruja de Minerva | A filosofia |
| Baudelaire | «Les Hiboux» | A paciência do sábio |
Perguntas frequentes
As corujas veem as cores?▾
Provavelmente não: as cores seriam para elas apenas tons de cinzento. A força delas está noutro lado, na quantidade de luz que os olhos captam.
Quantas espécies de aves de rapina noturnas existem?▾
Corujas, mochos e bufos formam a ordem dos estrigiformes, dividida em duas famílias. A Wikipédia em francês, consultada a 18 de outubro de 2026, conta 254 espécies vivas.
Que relação há entre a coruja e a escrita egípcia?▾
A coruja-das-torres empresta o seu perfil a um hieróglifo: o que representa a letra m.
O que quer dizer strix?▾
Em latim, strix designa a coruja e striga a bruxa. Os romanos acusavam as aves noturnas de beber, de noite, o sangue das crianças: daí nasce o mito das estriges.
Como se chamam em português algumas corujas europeias?▾
Entre as espécies europeias citadas pela Wikipédia em francês estão o mocho-galego (Athene noctua), a coruja-das-torres (Tyto alba) e a coruja-do-mato (Strix aluco).

