Significado da cobra, das mouras encantadas ao ouroboros

No folclore português, a moura encantada aparece muitas vezes junto às fontes em forma de serpente. Descubra o significado da cobra, da muda ao bastão de Asclépio e ao ouroboros.
Conta o folclore português que, junto a uma fonte, pode aparecer uma moura encantada. Às vezes tem a forma de uma mulher; muitas vezes, a de uma serpente. E é no dia de São João, diz a tradição, que as mouras aparecem com os seus tesouros e que o encantamento se pode quebrar.
Porque haveria uma guardiã de fontes e tesouros de ser uma cobra? Porque a cobra significa quase tudo, e o seu contrário. O significado da cobra está nessa contradição. Como muda de pele, é o sinal do renascimento. Enrolada num bastão, tornou-se o emblema da medicina. Quando morde a própria cauda, fala de eternidade. Mas é também a tentadora do Génesis e o monstro egípcio que quer engolir o Sol. Poucos animais foram tão venerados e tão temidos ao mesmo tempo.
Comecemos pela fonte, onde a moura se esconde.
A moura que se transforma em cobra
As mouras encantadas, ou moiras, são seres fantásticos com poderes sobrenaturais, oriundos do folclore português e galego. Entre elas, a moura-serpente pode tomar a forma de uma cobra.
Algumas destas mouras-cobra têm asas e aparecem meio mulher, meio animal. Assim acontece na lenda da serpente de Noudar ou na do Monte d'Assaia.
Fontes, leite e tesouros escondidos
- A fonte é um dos lugares onde as mouras aparecem com mais frequência, muitas vezes como serpentes. Às suas águas atribuíam-se virtudes mágicas.
- Uma das lendas de Formigais fala do gosto das mouras pelo leite. Esse leite pode estar ligado às oferendas que se faziam às águas das fontes e às cobras.
- Os tesouros que guardam tomam formas inesperadas: figos, pedras, carvões, meadas, animais ou instrumentos de trabalho, por vezes escondidos em panelas enterradas.
Guardiã das águas e das riquezas escondidas: a moura-serpente tem uma prima longínqua na Índia, onde os nagas, seres-serpente, também guardam as águas e os tesouros ocultos. E a cobra tem ainda muitos outros rostos.
Como é, de facto, uma cobra?

As cobras são répteis de corpo muito alongado, sem patas visíveis. Conhecem-se mais de 3500 espécies no mundo; segundo a Wikipédia em francês, cerca de 515 são venenosas. Os seus antepassados perderam as patas há cerca de 100 milhões de anos, quando se adaptaram à vida debaixo da terra. Isso aconteceu depois de uma série de mutações num gene de nome curioso: Sonic Hedgehog.
Em Portugal continental, a cobra-de-escada (Zamenis scalaris) está bem distribuída por todo o território, sobretudo até aos 800 metros de altitude. Também vive em Espanha e em França.
A muda, em poucos minutos
As cobras jovens mudam de pele pelo menos uma vez por mês; as adultas, três a quatro vezes por ano. Antes da muda, o animal procura um lugar húmido, que facilita a renovação da pele. Depois esfrega a ponta do focinho numa superfície rugosa. Abre-se aí uma fenda, e em poucos minutos a cobra sai da pele velha. Num animal saudável, a pele solta-se numa só peça: fica no chão como um molde vazio do corpo.
Olhos que não se fecham, uma língua que cheira
A cobra não tem pálpebras: os olhos estão sempre abertos. A língua bífida capta partículas do ar e leva-as ao órgão de Jacobson, que as analisa. Algumas espécies sentem até o calor das presas, graças a pequenas fossetas sensíveis aos infravermelhos.
Um olhar que nunca pestaneja, uma língua que tateia o ar, um corpo que se renova: percebe-se que os humanos a tenham olhado com uma mistura de medo e fascínio.
Mudar de pele: a cobra que renasce
Os antigos não precisavam de biologia para reparar na pele vazia. Aos olhos de muitos povos, a cobra parecia renascer sempre que a deixava para trás. Em várias religiões antigas, julgava-se até que era imortal: podia mudar de pele sem fim e parecer eternamente jovem.
Na Índia, um novo nascimento
Na Índia, a muda simboliza um novo nascimento. A serpente representa ali, ao mesmo tempo, o renascimento, a morte e a condição mortal. Os nagas, de que já falámos, são lá os guardiões das águas.
Gilgamesh e a planta roubada
Da Mesopotâmia chega um relato antigo que liga a cobra à juventude: a Epopeia de Gilgamesh, cuja primeira versão conhecida foi escrita em acádio entre os séculos XVIII e XVII a.C. O herói, Gilgamesh, consegue uma planta que devolve a juventude. Mais tarde, durante uma paragem no caminho, uma serpente rouba-lha. Gilgamesh volta para casa tão mortal como partiu; é a serpente que fica com a planta.
O ouroboros, a serpente que morde a cauda

Da muda ao círculo vai só um passo. O ouroboros é uma serpente, ou um dragão, que morde a própria cauda. O nome grego junta as palavras «cauda» e «voraz». Segundo a Wikipédia em francês, a representação mais antiga que se conhece é provavelmente egípcia e data do século XVI a.C.; há outra numa das capelas de Tutankhamon. Os egípcios viam nela o ciclo do tempo e a eternidade.
Muito mais tarde, por volta do ano 300, o alquimista Zósimo de Panópolis resumiu-o numa fórmula: o Todo é Um, existe pelo Um e regressa ao Um. Um fim que se junta ao princípio: é a própria ideia da muda, desenhada em círculo.
Também há outros animais associados à vida longa: falamos disso no nosso artigo sobre o que simboliza a tartaruga.
Bastão de Asclépio ou caduceu?

Olhe para a bandeira da Organização Mundial da Saúde: lá está uma serpente enrolada num bastão. Vem diretamente da mitologia grega.
O bastão de Asclépio
Asclépio é o deus grego da cura. Nas imagens que o representam, uma serpente acompanha-o, enrolada no bastão ou enroscada sob o trono. O bastão de Asclépio, um simples bordão com uma serpente enrolada, tornou-se o símbolo da medicina em muitos países. Portugal é um deles: a sua organização médica nacional usa um emblema com a serpente de Asclépio, tal como as do Brasil, de França ou de Itália. Nos Estados Unidos, encontra-se também na Estrela da Vida (Star of Life), o emblema das ambulâncias e das urgências.
Em alguns dos seus santuários, a cena tinha tudo para surpreender: os doentes iam lá dormir na esperança de se curarem, e serpentes domesticadas deslizavam perto deles.
Como distinguir o caduceu
- O bastão de Asclépio tem uma só serpente e nenhuma asa.
- O caduceu de Hermes é um bastão rematado por duas asas, à volta do qual se entrelaçam duas serpentes.
- Na América do Norte, o caduceu ocupou muitas vezes o lugar do bastão como símbolo médico, por confusão entre os dois emblemas.
Uma serpente sem asas: Asclépio. Duas serpentes com asas: Hermes.
A serpente de bronze de Moisés
A Bíblia também conhece uma serpente que cura. No livro dos Números, os israelitas são mordidos por serpentes no deserto. Moisés faz uma serpente de bronze e coloca-a sobre uma haste: quem for mordido e olhar para ela sobrevive. Séculos mais tarde, o rei Ezequias mandou destruí-la, porque se tinha tornado objeto de culto.
Temida e venerada
O mesmo animal que cura também pode matar. A sua má fama é tão antiga como a boa.
A tentadora do Génesis
No Génesis, uma serpente engana Adão e Eva e leva-os a desobedecer a Deus. A tradição identificou-a depois com Satanás. É talvez a imagem mais conhecida no Ocidente: a serpente astuta, a que sussurra. No entanto, algumas correntes gnósticas fizeram o contrário: louvaram-na por ter trazido o conhecimento aos humanos.
Egito: ameaça e proteção
O antigo Egito mostra bem as duas faces. De um lado, Apófis (Apep), a serpente do caos, tenta engolir a barca do Sol, e é sempre vencida. Do outro, o ureu, uma naja erguida, fica na testa do faraó para o proteger dos inimigos. Encarna a deusa Uadjet.
Mais a norte, uma serpente gigante
Na mitologia nórdica, Jörmungandr é uma serpente gigantesca. Aqui não há astúcia nem remédio: apenas um tamanho descomunal.
Prudentes como as serpentes
Até a astúcia pode tornar-se virtude. No Evangelho segundo Mateus, Jesus diz aos discípulos que os envia como ovelhas no meio de lobos, e pede-lhes que sejam prudentes como as serpentes. A manha da tentadora torna-se prudência.
Do outro lado do mundo, deuses bondosos
- Na Mesoamérica, Quetzalcóatl, a «serpente emplumada», está associado ao vento, à aurora e ao planeta Vénus. Simboliza a renovação, a sabedoria e a união da terra e do céu.
- No Daomé, na África Ocidental, o Danh-gbi é um deus-serpente benfazejo, ligado à sabedoria e à felicidade.
- Em muitas crenças locais, as serpentes são espíritos do solo e da terra.
- Mais perto de nós no tempo, Carl Jung viu na serpente uma imagem do inconsciente e da transformação pessoal.
De uma cultura para outra, a cobra foi venerada e temida ao mesmo tempo: um símbolo duplo, como a moura que tanto guarda um tesouro como o esconde.
Significado espiritual da cobra: o que está documentado e o que se crê

Quem procura o significado espiritual da cobra tem muitas vezes uma cena concreta em mente: uma cobra que atravessa o caminho, uma pele encontrada no quintal, um sonho que se repete. O que significa uma cobra nesse momento?
Vale a pena separar duas coisas:
- o que está documentado: a cobra muda de pele várias vezes por ano, nunca fecha os olhos, cheira com a língua. Se a encontrar, é antes de mais um carnívoro que caça, ou um animal à procura de um canto húmido para mudar de pele;
- o que pertence às crenças: conforme a tradição, a mesma serpente evoca o renascimento (a Índia, o ouroboros), a cura (Asclépio), a astúcia (o Génesis), a prudência (o Evangelho), a sabedoria (Quetzalcóatl) ou a guarda das fontes (as mouras encantadas).
A cobra não tem, portanto, um único significado espiritual. Nenhuma fonte decide qual é a interpretação certa: estas leituras revelam sobretudo o que cada povo esperava ou temia. Se uma pele vazia o faz pensar numa mudança, numa página virada ou num recomeço, essa leitura é sua.
Oferecer um animal para a lapela: a quem e com que palavras
Para quem
Com estas histórias na cabeça, um animal para usar ao peito torna-se uma pequena mensagem. Algumas ideias:
- alguém que começa uma vida nova, com uma mudança de casa, um emprego novo ou uma reconversão profissional, a lembrar a pele que se renova;
- uma enfermeira, uma auxiliar de saúde ou uma estudante de medicina, a lembrar a serpente de Asclépio;
- uma amiga que se levanta depois de uma fase difícil;
- uma pessoa prudente, que pensa antes de agir;
- quem adora os animais que não deixam ninguém indiferente.
Umas palavras para o cartão
- «Para uma pele nova e um novo começo.»
- «Que esta pele nova lhe assente como uma luva.»
- «Um pouco de prudência e muitas cores.»
Um animal estilizado para usar
Avisamos já: na loja não vai encontrar nenhuma cobra. O animal estilizado que o espera entre os nossos broches de bijuteria tem quatro patas de dedos afastados e uma longa cauda recurvada. A silhueta pode lembrar um lagarto ou uma osga, sem reproduzir uma espécie concreta.
Tem uma grande cabeça cor-de-rosa com olhos brancos e pretos, corpo azul e violeta e uma cauda em tons de verde, rosa e pêssego. Ao longo do dorso alinham-se três elementos abaulados (verde-claro, rosa e cinzento-azulado) e dois pequenos círculos transparentes. É em aço de cor prateada e prende-se com um fecho magnético. Sobre um casaco preto, um blusão de ganga ou uma camisola cor de cru, as cores sobressaem.
Vai encontrá-lo na nossa seleção de broches de réptil. E se preferir outros bichos para usar (gatos, cães, pássaros ou tartarugas), estão à sua espera entre todos os nossos broches de animais.
O significado da cobra em resumo
A cobra pode significar cura, renascimento, eternidade, prudência, perigo ou caos. O sentido que pesa mais depende da tradição e do relato que a acompanha.
| Tradição ou fonte | Relato ou figura | O que a cobra representa |
|---|---|---|
| Folclore português e galego | A moura-serpente das fontes | A guarda das águas e dos tesouros |
| Biologia | A muda, a língua, os olhos sem pálpebras | Um animal que se renova |
| Índia | A muda, os nagas | O renascimento, a morte, a guarda das águas |
| Mesopotâmia | Gilgamesh e a planta da juventude | A que rouba a planta da juventude |
| Egito e, mais tarde, a alquimia | O ouroboros | O ciclo do tempo, a eternidade |
| Grécia | O bastão de Asclépio | A cura, a medicina |
| Portugal, hoje | O emblema da organização médica nacional | A medicina |
| Bíblia (Números) | A serpente de bronze | A cura |
| Bíblia (Génesis) | A tentadora | A astúcia, a desobediência |
| Egito | Apófis e o ureu | O caos e a proteção do faraó |
| Evangelho segundo Mateus | Prudentes como as serpentes | A prudência |
| Mesoamérica | Quetzalcóatl, a serpente emplumada | A renovação, a sabedoria |
| Carl Jung | O arquétipo | O inconsciente, a transformação |
Perguntas frequentes
De onde vem a palavra «serpente»?▾
Do latim serpens, «animal que rasteja», particípio presente do verbo serpere, «rastejar».
A cobra-de-escada é venenosa?▾
Não, é considerada inofensiva. Vive sobretudo no solo, mas trepa a arbustos e árvores à procura de ninhos de pássaros.
Qual é o símbolo dos farmacêuticos?▾
É a taça de Hígia: uma taça à volta da qual se enrola uma única serpente. Não deve ser confundida com o bastão de Asclépio, símbolo da medicina, nem com o caduceu de Hermes.
Que relação há entre o ouroboros e a química?▾
O químico August Kekulé afirmou que a imagem de uma serpente que morde a própria cauda, o ouroboros, lhe inspirou a descoberta da estrutura do benzeno.
O que é a festa de Nag Panchami?▾
É uma grande festa hindu dedicada às serpentes. Os fiéis oferecem leite e incenso às estátuas de serpentes.

