Significado da margarida: inocência, pérola e bem-me-quer

Uma flor que se desfolha, um nome que queria dizer pérola, o anel de um rei: descubra o significado da margarida, da inocência ao «pensarei nisso».
Em português, a pergunta já vem escrita no nome da flor. Diga devagar «malmequer» e ouvirá «mal me quer». O dicionário Priberam confirma: a palavra junta mal, me e uma forma do verbo querer. A sua irmã, «bem-me-quer», junta bem, me e quer. Antes de qualquer livro de símbolos, a margarida dos prados já fala de amor.
Qual é o significado da margarida? Em Le Langage des fleurs, o livro da francesa Charlotte de La Tour publicado em 1819, a margarida pequena significa a inocência, e a margarida dos prados responde «pensarei nisso»: uma promessa que ainda não o é. Junte-lhe o jogo das pétalas e tem a flor do amor que hesita. O nome margarida, esse, vem do latim margarita, «pérola». Acompanhe-a dos prados até ao anel de um rei de França.
Pelo caminho, vamos separar o que está documentado (a botânica, a história das palavras) do que se conta (a linguagem das flores, as tradições). As duas coisas valem a pena, desde que não se misturem.
Malmequer, bem-me-quer: um jogo escrito no nome da flor

O gesto é simples. Pega-se numa margarida pelo caule e arrancam-se as pétalas brancas, uma a uma, alternando as respostas a uma pergunta de amor. A última pétala dá o veredicto.
Em português, o jogo e a flor partilham as mesmas palavras: a Wikipédia em português associa o jogo «Mal-me-quer, bem-me-quer» a esta flor, cujo nome soa exatamente como «mal-me-quer». Em França, a fórmula tem mais nuances do que um simples sim ou não: «Il m’aime, un peu, beaucoup, passionnément, à la folie, pas du tout», ou seja, ama-me um pouco, muito, apaixonadamente, loucamente, nada. Algumas versões acrescentam «plus que tout», mais do que tudo.
Joga-se em vários países, com a margarida grande e com a sua prima pequena dos relvados. Até subiu ao palco: aparece no bailado Giselle de Jean Coralli e Jules Perrot, estreado em Paris em 1841. Victor Hugo também o evoca em Os Miseráveis.
E de onde vem? Ninguém sabe ao certo. As fontes que consultámos não dizem nem onde nasceu nem desde quando se joga. Já o português guardou as duas respostas no próprio vocabulário: malmequer e bem-me-quer são nomes da mesma flor.
Margarida, malmequer ou bonina: que flor é esta?

Em português, a mesma flor dos prados tem uma coleção de nomes. A página da Wikipédia sobre a Leucanthemum vulgare enumera bem-me-quer, bonina, margarida, malmequer, malmequer-bravo e até olho-de-boi. A pequena dos relvados é a Bellis perennis, a margaridinha, também chamada margarida-menor. Em francês chamam-lhe «petite marguerite», margarida pequena, e o pormenor conta: os velhos livros de flores dão a cada uma a sua própria mensagem.
Uma flor que esconde dezenas
As duas pertencem à família das asteráceas. Aquilo que tomamos por uma só flor é, na verdade, um capítulo: um ramalhete apertado de muitas florzinhas. Tem duas partes:
- na orla, as lígulas brancas, a que toda a gente chama pétalas;
- no centro, as flores amarelas do disco, minúsculas e muito juntas.
Por outras palavras: quem desfolha um malmequer não arranca pétalas. Tira, uma a uma, pequenas flores.
Dos prados às bermas dos caminhos
A margarida grande é uma planta vivaz. Cresce nos prados, nas bermas e nas clareiras dos bosques, e é muito comum em toda a Europa. Já passou certamente por centenas delas à beira de uma estrada, sem reparar.
A margaridinha guarda o mesmo segredo: um coração amarelo rodeado de lígulas brancas. E tem um hábito encantador: fecha-se à noite e abre-se de manhã.
Esta flor redonda, com a sua coroa de pétalas, também a encontra em vários dos nossos broches de flor em forma de margarida. Mas antes do broche houve… uma pérola.




Margarida quer dizer pérola
Antes de ser flor, a margarida foi pérola.
O Priberam dá a origem sem rodeios: do latim margarita, «pérola». O latim tinha-a ido buscar ao grego margarítēs. E o mesmo dicionário dá margarita e malmequer como sinónimos de margarida.
A pérola antiga também se esconde no Evangelho segundo São Mateus: no texto latino, as pérolas que não se devem deitar aos porcos são precisamente margaritas. Em francês diz-se «jeter des perles aux pourceaux».
Em francês, a passagem da pérola à flor foi lenta. Por volta de 1130-1140, «margerie» designava a pérola. O sentido de flor aparece pela primeira vez no século XIII, no conto Aucassin et Nicolette, e refere-se… à margaridinha.
Olhe agora para uma margarida com outros olhos: um coração dourado, uma coroa branca bem redonda. A comparação com uma pérola é quase inevitável. Os poetas pensaram o mesmo: em 1364, Guillaume de Machaut dedicou-lhe um poema inteiro, Le Dit de la marguerite.
O anel de São Luís

O jogo entre pérola, flor e nome próprio também chegou às cortes. Luís IX de França, São Luís, casou em 1234 com Margarida da Provença. Segundo Charlotte de La Tour, o rei usava um anel ornado com uma grinalda de lírios e margaridas, com um crucifixo e esta divisa: «Hors cet anel pourrions-nous trouver amour?», qualquer coisa como «fora deste anel, poderíamos encontrar amor?». O anel reunia assim, conta ela, a fé, a França e a rainha.
É uma tradição contada num livro do século XIX, não um documento de arquivo. Mas a ideia comove: trazer no dedo a flor que tem o nome da sua rainha.
Um nome de mulher muito popular
Em França, da Idade Média ao século XVIII, Marguerite esteve entre os nomes mais dados às meninas. Santa Margarida de Antioquia é a padroeira das parturientes. Mais um laço com o nascimento, como a «flor do recém-nascido» que vai encontrar já a seguir.
Significado da flor margarida na linguagem das flores

No século XIX, gostava-se de ramos que falavam. Em 1819 sai em França Le Langage des fleurs de Charlotte de La Tour, um livro que dá uma mensagem a cada flor. A margarida recebe várias, conforme a variedade. Lembre-se de que são convenções fixadas por um livro, não verdades sobre a planta. Para perceber como nasceu este código, leia o nosso guia da linguagem das flores.
A margarida pequena, flor da inocência
Para Charlotte de La Tour, a margarida pequena, ou seja, a margaridinha, significa a inocência. Para o explicar, cita os poemas de Ossian, um ciclo escocês do século XVIII. Nele, Malvina chora Óscar e o filho de Óscar, morto antes de nascer. As raparigas de Morven consagram então a margarida pequena «à primeira infância», e a flor torna-se «a flor da inocência, a flor do recém-nascido».
É uma lenda literária, não uma crença antiga. Mas dá à florzinha branca um sentido muito terno: o de uma vida que começa. Fica bem a uma flor que volta a abrir-se todas as manhãs.
A margarida dos prados: «Pensarei nisso»
A margarida grande traz uma mensagem mais misteriosa: «J’y songerai», pensarei nisso. O mesmo livro conta que, no tempo dos cavaleiros, uma dama que se mostrava coroada de margaridas brancas dava precisamente essa resposta a quem lhe pedia para a servir.
Nem sim nem não. O cavaleiro podia ter esperança, mas nada estava garantido. É o mesmo suspense do bem-me-quer, mal-me-quer: a margarida é mesmo a flor do amor que hesita.
A margarida tem um significado espiritual?
Muita gente procura o «significado espiritual» da margarida. Nas fontes que consultámos, nenhuma tradição antiga lhe atribui uma mensagem espiritual concreta.
O que lá encontramos é a inocência e a infância que a linguagem das flores do século XIX lhe dá, e a espera amorosa do «pensarei nisso». Se a margarida lhe inspira outra coisa, é uma leitura pessoal, e pertence-lhe.
Oferecer uma margarida: que mensagem escolher
Com todos estes sentidos, a margarida encaixa em momentos muito diferentes:
- um nascimento, em lembrança da «flor do recém-nascido»;
- uma declaração tímida, ou uma resposta que deixa a porta aberta: «pensarei nisso»;
- uma Margarida, que já traz a flor no nome;
- alguém que adora os prados e as flores do campo.
O essencial é ligar a flor ao que essa pessoa está a viver. Bastam umas palavras no cartão:
- «Bem-vinda ao mundo, florzinha.»
- «Já pensei nisso: bem te quero, sem tirar uma única pétala.»
- «Uma margarida para a minha Margarida.»
Para escolher o broche certo para cada pessoa, leia o nosso guia para oferecer uma pregadeira. Quer uma mensagem mais clara? Junte a margarida a outra flor e descubra o que dizem a rosa vermelha e a rosa branca.
Usar a margarida num broche
Uma margarida em broche não murcha e usa-se em qualquer estação. Na Ma Broche, as margaridas são peças de bijuteria que interpretam a flor de várias maneiras:
- pétalas esmaltadas de várias cores, com strass, sobre uma base cor dourada;
- uma margarida preta de doze pétalas, com o coração creme em relevo e duas folhas verdes;
- duas margaridas sobrepostas em aço cor prateada, com pétalas creme, cinzentas e pretas;
- uma margarida preta e outra branca reunidas num medalhão vazado.
Todas se prendem com um fecho magnético. Ponha uma na lapela de um casaco, numa camisola ou num lenço: o preto e branco combina com um visual sóbrio, e a versão multicolor alegra um sobretudo liso. Para escolher a sua, espreite a nossa seleção de flores para usar ao peito.
Apetece-lhe compor um pequeno ramo? Junte um broche de papoila: esta flor do campo também tem a sua história, contada no nosso artigo sobre o significado da papoila.
Significado da margarida: o essencial num quadro
Na linguagem das flores do século XIX, a margarida significa a inocência e o amor que hesita, e o seu nome começou por significar «pérola». O quadro separa os factos (botânica, origem das palavras), as regras do livro de 1819 e as tradições contadas:
| Domínio ou fonte | O que representa a margarida |
|---|---|
| Botânica | Um capítulo: flores amarelas no centro, lígulas brancas à volta |
| Origem de «margarida» | Do latim margarita, «pérola» |
| Origem de «malmequer» e «bem-me-quer» | Mal + me + quer, bem + me + quer: o jogo das pétalas dentro da palavra |
| Nomes portugueses da flor dos prados | Bem-me-quer, bonina, malmequer, malmequer-bravo, olho-de-boi |
| Margarida pequena (Charlotte de La Tour, 1819) | A inocência, «a flor do recém-nascido» |
| Margarida dos prados (1819) | «J’y songerai»: pensarei nisso |
| Jogo das pétalas | O amor incerto; origem desconhecida |
| São Luís (tradição contada) | Anel de lírios e margaridas, por Margarida da Provença |
| Significado espiritual | Nenhuma tradição antiga documentada |
Perguntas frequentes
O que significa a margarida dobrada?▾
Em Le Langage des fleurs de Charlotte de La Tour (1819), a margarida dobrada responde «Je partage vos sentiments», partilho os seus sentimentos. Para o cavaleiro paciente, a dúvida fica desfeita.
Porque é que a margarida se chama «daisy» em inglês?▾
«Daisy» vem do inglês antigo dæges eage, «o olho do dia», porque a flor se abre de manhã e se fecha ao fim do dia. Chaucer já lhe chamava «eye of the day». Em inglês, Daisy é também a alcunha das Margaret, precisamente porque «marguerite» é o nome francês da flor.
O que significa a «reine-marguerite» na linguagem das flores?▾
No livro de Charlotte de La Tour (1819), a reine-marguerite significa a variedade. É uma planta diferente da margarida: vem da China e chegou a França graças ao padre d’Incarville, um missionário que enviou as suas sementes para o Jardin du roi, o jardim real de Paris, por volta de 1730.
Quem foi «la Marguerite des Marguerites»?▾
Era assim que chamavam a Margarida de Angoulême (1492-1549), irmã de Francisco I de França, rainha de Navarra e mulher de letras. A sua coletânea, publicada em 1547, intitula-se Les Marguerites de la Marguerite des princesses: pérola, flor ou princesa, o título joga com as três.
A margarida é uma flor nacional?▾
Sim, na Dinamarca: em 1987 substituiu o trevo-vermelho como flor nacional, e a rainha Margarida II é «Daisy» para os mais próximos. A França não tem flor nacional oficial; associam-se por vezes a centáurea-azul, a margarida e a papoila às três cores da sua bandeira.
