Libelinha significado: vitória, amor e lendas

Uma mulher que sai da boca de uma libélula, em Lisboa; um antigo nome do Japão; uma «agulha de Satanás»: descubra o significado da libelinha, do Japão a Portugal.
Em Lisboa, nas coleções do Museu Calouste Gulbenkian, uma mulher sai da boca de uma libélula enorme. As asas abrem-se, articuladas, e as patas terminam em garras de grifo. É o peitoral «Libélula» de René Lalique, que o museu apresenta como «provavelmente a joia mais espetacular alguma vez criada» pelo artista. Porquê uma libélula? Porque poucos insetos carregam tantas histórias.
Qual é, então, o significado da libelinha? Depende de onde se olha. No Japão, é o inseto da vitória e traz sorte. Na mitologia germânica, é tida como mensageira de Freyja, deusa do amor. Para os Navajos, simboliza a água pura. A Europa cristã, essa, fez dela uma criatura do diabo.
Libelinha significado: a resposta curta
Se tem pouco tempo, guarde estas quatro faces da libélula:
- vitória e sorte, no Japão;
- amor, na mitologia germânica e na Saboia, nos Alpes franceses;
- água pura, para os Navajos;
- medo, nas alcunhas que lhe deu a Europa cristã.
Pelo caminho, vamos separar o que está estabelecido (a biologia, a história) do que se conta (as lendas e as crenças). As duas coisas têm encanto, desde que não se confundam.
Libelinha ou libélula: qual é a diferença?
Antes dos símbolos, uma dúvida de vocabulário que muitos leitores têm. «Libelinha» é um dos nomes populares que a língua portuguesa dá aos zigópteros, como mostra o artigo da Wikipédia sobre os zigópteros. Zigópteros e anisópteros pertencem à mesma ordem, a dos odonatos, mas não se confundem:
- os zigópteros têm quatro asas do mesmo comprimento e geralmente repousam com as asas fechadas sobre o corpo;
- os anisópteros, as libélulas em sentido estrito, têm asas desiguais e mantêm-nas abertas em repouso.
Neste artigo, falamos das duas. E há até uma libelinha com uma história portuguesa. Segundo a mesma fonte, a partenogénese, ou seja, a reprodução das fêmeas sem machos, é excecional entre os zigópteros e só foi registada em populações naturais de Ischnura hastata, nas ilhas dos Açores. Uma pequena raridade do Atlântico.




Uma vida entre a água e o ar

Antes das lendas, há o animal. E o animal já é surpreendente.
Quatro asas e olhos de muitas facetas
A libélula tem dois pares de asas membranosas que funcionam de forma independente: é aí que está todo o segredo do seu voo. Cada olho é formado por muitíssimas facetas, e três pequenos olhos simples, os ocelos, completam o equipamento. Útil para uma caçadora: em todas as fases da vida, a libélula é um predador.
Uma infância debaixo de água
O que vemos voar é só o fim da história. A libélula começa a vida na água, como larva. Respira por brânquias e caça com uma arma temível: a «máscara», um lábio inferior que se desdobra de repente para agarrar as presas.
Para crescer, a larva muda de pele 9 a 16 vezes. Um dia sai da água e aparece o adulto alado. Ao contrário da borboleta, não passa por uma fase imóvel de crisálida: a metamorfose é progressiva. Vale a pena lembrar esta diferença se ler também o significado da borboleta: os dois insetos não se transformam da mesma maneira.
Uma vida em dois mundos, primeiro debaixo de água e depois no ar: talvez seja por isso que a libélula faz sonhar tanto.
Uma prima gigante numa mina francesa
A libélula tem parentes muito antigos. Em 1880, nas minas de Commentry, no centro de França, são descobertos os fósseis de um inseto com ar de libélula gigante. Charles Brongniart descreve-o em 1885 com o nome de Meganeura monyi. A envergadura podia chegar a 70 ou 80 cm, e o animal viveu no Carbónico, há mais de 300 milhões de anos. Não é uma libélula em sentido estrito, antes uma prima desaparecida. Mas que silhueta!
Japão: as ilhas das libélulas

Se há um país que fez da libélula um emblema, é o Japão. O arquipélago tem cerca de 190 espécies de libélulas, e a história comum do inseto e das pessoas vem de muito longe. O entomólogo Konishi Masayasu contou-a em 2004, num artigo da revista japonesa Nipponia, seguindo três caminhos: as colheitas, os velhos relatos do Nihon shoki e a vitória dos guerreiros.
Libélulas em sinos de bronze
As representações japonesas mais antigas de libélulas decoram dotaku, sinos cerimoniais de bronze do período Yayoi. Os historiadores veem nelas preces por uma boa colheita. A libélula era então vista como uma aliada dos arrozais.
Akitsushima, um antigo nome do Japão
Em 720, os Anais do Japão (o Nihon shoki) designam a libélula pelo seu nome antigo: akitsu. Lê-se ali que Jimmu, primeiro imperador do Japão segundo a tradição (a sua existência não está comprovada), terá contemplado o país do alto de uma colina de Yamato. E terá dito que o país tinha «a forma de dois akitsu acasalados».
Os mesmos Anais contam outra cena, no tempo do imperador Yūryaku. Durante uma caçada, um tavão pousa no braço do imperador. Uma libélula surge e leva-o. A planície passa então a chamar-se Akitsu-no, «a planície da libélula». Daí viria Akitsushima, «as ilhas das libélulas», um antigo nome do Japão.
Um país inteiro que já teve o nome de um inseto: percebe-se melhor o lugar que a libélula ocupa no coração dos japoneses.
Kachi-mushi, o inseto dos samurais
No Japão, a libélula é um kachi-mushi, um «inseto vitorioso» que dá sorte. Aparece em capacetes de samurais, em brasões de família e em toda a espécie de objetos.
Porquê ela? O Metropolitan Museum de Nova Iorque, que guarda um capacete de samurai decorado com uma libélula, explica porquê: a libélula voa a direito para a presa, sem nunca se desviar. Para um guerreiro, é difícil encontrar melhor modelo.
As crianças gostam dela por outras razões. No Japão, apanham-se libélulas há séculos: uma enciclopédia ilustrada do início do século XVIII já descreve o método.
Europa: da mensageira do amor à «agulha de Satanás»
Na Europa, a história começa bem. Na mitologia germânica, as libélulas estão associadas a Freyja, deusa do amor, de quem seriam as mensageiras.
Depois o cristianismo espalha-se e a libélula passa para o outro lado: é diabolizada. O inglês ainda o mostra no próprio nome, dragonfly, a «mosca-dragão». Em França, as alcunhas tornam-se francamente inquietantes:
- «flechas do diabo» e «agulhas de Satanás»;
- crève-œil, «fura-olhos», e tire-sang, «tira-sangue»;
- pique-serpent, «pica-cobras»;
- martaî-diale em valão, o «martelo do diabo».
A maior parte destes nomes assenta na mesma crença: pensava-se que a libélula tinha um ferrão. Seria verdade? A resposta está nas perguntas frequentes, no fim do artigo.
Felizmente, a ternura não desapareceu de todo. Na Saboia, chamava-se à libélula «borboleta do amor». Corria até um ditado: quem levar uma libélula para casa e a vir morrer pelo caminho pode esperar pouca sorte nos amores.
Navajos, Zunis e Hopis: a água pura
Do outro lado do Atlântico, a libélula também tem o seu lugar. Mais vale não generalizar: cada povo tem as suas tradições. Para os Navajos, simboliza a água pura. Para um inseto que nasce na água, a escolha fala por si.
É também um motivo frequente, muitas vezes estilizado numa cruz de barra dupla, na cerâmica zuni, na arte rupestre hopi e em colares pueblo. Uma taça hopi de Sikyátki, no Arizona, datada de cerca de 1400 a 1625, está mesmo decorada com uma libélula.
Libélula azul: há um significado espiritual?

À beira de um lago, é muitas vezes uma libélula azul que prende o olhar. Antes de lhe dar um sentido, vale a pena ver quem veste esse azul. Na Europa, pode cruzar-se com várias espécies:
- Anax imperator, uma das maiores libélulas da Europa: tórax verde e, no macho adulto, abdómen azul com uma faixa negra por cima, enquanto a fêmea é verde. O macho patrulha o seu ponto de água durante horas e expulsa as outras libélulas da mesma família;
- Orthetrum cancellatum: em jovem, o macho é amarelo com riscas pretas; em adulto, o abdómen cobre-se de uma pruína azul;
- Coenagrion puella, uma libelinha: o macho tem o abdómen azul-claro marcado de preto, a fêmea é esverdeada.
Reparou no que têm em comum? Nas três espécies, o azul é sobretudo a cor dos machos adultos.
E o significado espiritual da libélula azul? Nos sites de espiritualidade, atribui-se-lhe muitas vezes uma mensagem especial. Nenhuma tradição antiga a confirma nas fontes que consultámos. Se quiser ver nela um sinal, está à vontade, sabendo que se trata de uma interpretação pessoal. Entre os significados positivos apresentados aqui, destacam-se a vitória no Japão, o amor associado a Freyja e à tradição da Saboia, e a água pura para os Navajos.
Rendeu-se a este azul? Um dos nossos broches libélula combina asas pretas, cinzentas e azul-claro, como um piscar de olho a estes machos azulados.
De Paris a Lisboa: a libélula de Lalique

Voltemos à mulher-libélula do início. René Lalique (1860-1945), mestre vidreiro e joalheiro, é um dos maiores criadores de joias da Arte Nova francesa. Um pormenor importa aqui: tinha descoberto a arte japonesa nas Exposições Universais de 1867 e de 1878.
Lalique inspira-se na fauna e na flora, insetos incluídos. Atreve-se a usar materiais então pouco comuns na joalharia: o vidro, o esmalte, o chifre, a madrepérola. O seu peitoral com libélula, criado por volta de 1897-1898, é muito admirado na Exposição Universal de 1900, em Paris. Calouste Gulbenkian, cliente e amigo do artista, compra-o e empresta-o depois a Sarah Bernhardt.
É assim que a peça acaba em Lisboa. A ficha do peitoral «Libélula» no site do museu descreve uma figura que junta dois temas caros a Lalique, a mulher e o inseto em que ela se transforma: uma criatura híbrida que, nas palavras do museu, «simultaneamente atrai e repele». Da boca do inseto emerge um busto de mulher, com um elmo decorado com dois escaravelhos. O Museu Calouste Gulbenkian guarda também outras joias de René Lalique.
Depois de 1920, Lalique volta-se para a Art Déco e as suas joias caem no esquecimento. Só uma exposição no Musée des Arts décoratifs de Paris, em 1991, faz subir de novo o seu valor.
Os insetos continuam a inspirar as joias: borboletas, abelhas e libélulas encontram-se ainda hoje nos nossos broches de insetos. A abelha também foi emblema, de um rei franco até Napoleão: a história está no nosso artigo sobre o significado da abelha.
Oferecer e usar uma libélula
Uma libélula não diz o mesmo a toda a gente. Deixe-se guiar pelas tradições para escolher o momento ou a pessoa:
- um exame, um concurso ou um desafio superado, a lembrar o kachi-mushi japonês, o inseto vitorioso;
- uma declaração ou o aniversário de um encontro, em memória das mensageiras de Freyja e da «borboleta do amor» da Saboia;
- um recomeço, para alguém que levanta voo, como a larva que sai da água;
- alguém que gosta da natureza, dos lagos e dos passeios à beira de água;
- quem admira a Arte Nova, a cultura japonesa ou a coleção Lalique da Gulbenkian.
O mais importante é ligar a libélula ao que a pessoa vive. Umas palavras no cartão chegam: «Direito ao objetivo, como uma libélula. Parabéns!», «Uma pequena mensageira de amor» ou «Para um novo voo». Se ainda hesita, o nosso guia para oferecer uma pregadeira ajuda a escolher.
Na Ma Broche, as libélulas são peças de bijuteria em aço de cor prateada, com asas cinzentas e azul-claro, acobreadas ou multicolores, e um fecho magnético: uma pequena placa fica por trás do tecido. Na lapela de um casaco, num sobretudo ou num lenço, trazem um toque de natureza e leveza. Escolha a sua na nossa coleção de libélulas. Prefere asas mais coloridas? Espreite os broches borboleta.
Em resumo
O significado da libelinha muda com o lugar: vitória e sorte no Japão, amor na mitologia germânica e na Saboia, água pura para os Navajos e medo na Europa cristã, que lhe deu alcunhas diabólicas. Eis as suas principais faces:
| Lugar ou época | O que a libélula representa |
|---|---|
| Japão, período Yayoi | Imagens nos sinos dotaku, ligadas pelos historiadores a preces por uma boa colheita |
| Japão, Anais de 720 | Segundo o Nihon shoki: Akitsushima, antigo nome do Japão |
| Japão, samurais | Kachi-mushi, inseto vitorioso e amuleto de sorte |
| Mitologia germânica | Mensageira de Freyja, deusa do amor |
| Europa cristã | Inseto «do diabo», alcunhas inquietantes |
| Saboia | «Borboleta do amor» |
| Navajos | A água pura |
| Arte Nova, cerca de 1900 | O peitoral «Libélula» de René Lalique, hoje no Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa |
| Açores | Ischnura hastata, a libelinha em que a partenogénese foi registada em populações naturais |
| Libélula azul | O azul aparece sobretudo nos machos adultos das espécies citadas; o sentido espiritual é uma interpretação pessoal, sem tradição documentada nas fontes deste artigo |
Perguntas frequentes
As libélulas têm ferrão?▾
As libélulas não têm ferrão. As alcunhas antigas, como «agulhas de Satanás» ou «fura-olhos», vêm da crença de que teriam um ferrão.
A que velocidade voa uma libélula?▾
No máximo, pode chegar aos 36 km/h. Graças aos dois pares de asas que funcionam de forma independente, também consegue pairar no mesmo sítio e voar para trás.
De onde vem a palavra «libélula»?▾
Vem de Libellula, o nome que Lineu deu ao género em 1758. Os dicionários atuais ligam-no ao latim libella, «nível», por causa do voo planado perfeitamente horizontal do inseto. O dicionário francês de Littré (1872) propunha outra pista, um diminutivo do latim libellus, «livrinho»: as asas abertas lembrariam folhas. Continua a ser uma hipótese.
Ver libélulas junto a um charco é bom sinal?▾
As libélulas são bons bioindicadores da qualidade dos meios aquáticos. As larvas vivem debaixo de água de dois meses a cinco anos, conforme a espécie, muito mais tempo do que dura a vida do adulto. A sua presença pode, por isso, dizer algo sobre a qualidade da água do charco.
O que é «Aka-tombo»?▾
«Aka-tombo», «A libélula vermelha», é uma canção infantil japonesa escrita em 1921. Ainda hoje se canta.
