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Escaravelho: significado, Quepri e o sol que renasce

Por Ma-Broche.fr· 22 de outubro de 2026
Escaravelho: significado, Quepri e o sol que renasce

No Egito antigo, o escaravelho-sagrado foi a imagem de Quepri, o sol nascente, e também amuleto, selo e guardião do coração das múmias. E hoje sabe-se que um parente dele se orienta pela Via Láctea.

Não é preciso ir ao Cairo para ver de perto o Egito antigo. Em Lisboa, a coleção de Antiguidades Egípcias do Museu Nacional de Arqueologia reúne 584 objetos, 309 deles em exposição permanente, e cobre mais de cinco mil anos de história. Umas duzentas peças foram trazidas pela rainha D. Amélia da sua viagem ao Egito, em 1903. Foi nesse mundo antigo que um pequeno inseto negro, que empurra uma bola, se tornou um dos seus grandes símbolos.

Qual é o significado do escaravelho? Numa palavra: renascimento. Os antigos egípcios viam este escaravelho negro fazer rolar a sua bola e pensavam no sol, empurrado todas as manhãs acima do horizonte. O inseto tornou-se a imagem de Quepri, o deus do sol nascente, cujo nome quer dizer «tornar-se». Daí vêm os sentidos que ainda hoje lhe damos: transformação, novo começo e proteção. Foi usado como amuleto, colocado sobre o peito das múmias, e um faraó chegou a mandar gravar em escaravelhos os grandes acontecimentos do seu reinado.

Aqui, a história começa pelo deus. O bicho vem logo a seguir.

Quepri, o deus cujo nome quer dizer «tornar-se»

Pintura original: um escaravelho empurra uma esfera laranja sobre uma colina
Aos olhos dos egípcios, a bola tornou-se um sol.

Na mitologia egípcia, Quepri está ligado ao sol e é um símbolo de renascimento. Representavam-no de duas maneiras: como um escaravelho que empurra o disco solar, ou como um homem com cabeça de escaravelho. Segundo a página da Wikipédia em português dedicada a Quepri, foi sobretudo esculpido e pintado como escaravelho; a figura de homem aparece em alguns papiros funerários. Para os egípcios, a bola de esterco tornava-se um astro.

Um nome que é um verbo

O nome do deus e o do inseto parecem-se, e não por acaso. A mesma página em português explica que, na língua egípcia antiga, o símbolo do escaravelho significava «tornar-se». A Wikipédia em francês acrescenta um pormenor: o nome vem de kheperer, «escaravelho», e do verbo kheper, «vir à existência» ou «tornar-se». O inseto e a ideia de transformação andavam juntos. Dizer «escaravelho» era quase dizer «nascer».

Manhã, meio-dia e fim de tarde

Quepri não era o sol inteiro, apenas a sua manhã. A Wikipédia em português chama-lhe o aspeto matinal de Rá. Ao longo do dia, o astro mudava de nome:

  • ao nascer, Quepri, o sol que renasce;
  • ao meio-dia, Rá, o sol no zénite;
  • ao fim da tarde, Atum, o sol poente.

Acreditava-se que Quepri fazia renascer o sol todas as manhãs, o empurrava acima do horizonte e, de noite, o levava para o outro mundo, para o trazer de volta no dia seguinte. Para quem acreditava, o escaravelho era uma promessa: a noite acaba sempre numa manhã. A sua imagem está por toda a parte na arte religiosa e funerária egípcia.

O escaravelho-sagrado, o inseto por trás do deus

Escaravelho negro a empurrar uma bola redonda sobre a areia, de dia
Segue a direito, com uma bola maior do que ele entre as patas.

Os egípcios não inventaram o símbolo: viram-no trabalhar. Em português, o inseto chama-se escaravelho-sagrado. O nome científico, Scarabaeus sacer, foi-lhe dado por Lineu em 1758. Mede entre 26 e 40 milímetros.

Com o esterco, faz bolas que podem ser várias vezes maiores do que o próprio inseto e rola-as até uma toca. Ali, debaixo da terra, põe um ovo. A larva que nasce encontra à sua volta tudo aquilo de que precisa para se alimentar.

Uma bola desaparece debaixo da terra e dela sai uma vida nova. Muito antes de alguém estudar os insetos com método científico, a cena bastava para impressionar. Para os egípcios, o pequeno trabalhador da areia repetia, à sua escala, o caminho do sol.

Amuletos e selos: o escaravelho que se trazia consigo

Muito antes dos broches de bijutaria de hoje, o escaravelho já se usava ao peito. E deixou de ser só uma ideia: passou a ser um objeto.

Pequenos, de esteatite e com uma face plana

Os objetos em forma de escaravelho já aparecem na VI dinastia. Os mais comuns são pequenos (de 1 a 3 centímetros) e a maioria é de esteatite. Na face plana têm figuras ou inscrições: estes pequenos escaravelhos serviam ao mesmo tempo de amuleto e de selo. A partir da XVIII dinastia surgem também inscrições com votos de boa sorte.

As notícias gravadas de Amenófis III

O faraó Amenófis III mandou gravar uma série célebre de escaravelhos para anunciar os acontecimentos do seu reinado: o casamento com a rainha Tiye, a criação de um lago, as caçadas, as alianças. Eram oferecidos aos soberanos aliados como objetos de prestígio. Foram encontrados 250 exemplares. Um escaravelho podia levar uma notícia, um pouco como uma participação de casamento que se guarda numa gaveta.

O escaravelho do coração e a balança do Livro dos Mortos

Escaravelho de pedra castanha pousado sobre ligaduras de linho
Maior, mais solene: era feito para a múmia.

Havia uma versão maior e mais séria. Os escaravelhos do coração, talhados em pedra dura, medem de 3 a 12 centímetros (6 em média). Destinavam-se às múmias: eram colocados sobre o peito ou entre as ligaduras.

O Museu do Louvre, em Paris, conserva um em pedra castanha, do final da XVIII ou da XIX dinastia. Segundo a ficha do museu, tem nove linhas de hieróglifos tiradas do capítulo 27 do Livro dos Mortos, um texto que devia proteger o coração do defunto no além. Não está furado: não se usava em vida, acompanhava o morto.

Porquê o coração? No Livro dos Mortos, uma cena célebre mostra uma balança de dois pratos. Num deles está o coração do defunto, que representa a sua consciência; no outro, a pena de Maat, deusa da verdade e da justiça. O escaravelho do coração velava, portanto, pelo órgão que ia ser pesado.

Um escaravelho que se orienta pela Via Láctea

Escaravelho negro sobre a areia, de noite, sob a Via Láctea
Uma faixa de luz no céu basta-lhe para não perder o rumo.

Os egípcios ligavam o escaravelho ao sol. Em 2013, investigadores mostraram que um parente próximo do escaravelho-sagrado olha mesmo para o céu, mas de noite. O estudo, conduzido por equipas da Universidade do Witwatersrand, em Joanesburgo, e da Universidade de Lund, na Suécia, foi publicado na revista Current Biology. Incidiu sobre Scarabaeus satyrus, outro escaravelho que rola a sua bola em linha reta para se afastar do monte de esterco.

Um capuz minúsculo e um planetário

Os investigadores puseram a alguns insetos um capuz minúsculo, opaco ou transparente, e observaram-nos ao ar livre e sob o céu artificial de um planetário. Segundo o site francês de divulgação Futura Sciences, eis o tempo que os insetos levavam a chegar à borda do dispositivo:

  • com a Lua: 21 segundos;
  • sem Lua, com estrelas: 40 segundos;
  • sem Lua nem estrelas: 117 segundos;
  • com um capuz opaco: 125 segundos em média;
  • no planetário, só com a Via Láctea visível: 53 segundos.

Por outras palavras, a faixa pálida da nossa galáxia chega para guiar o inseto. Segundo o estudo publicado na Current Biology, é o primeiro caso documentado de um animal que se orienta graças à Via Láctea. Isto não confirma o mito egípcio. Mas um escaravelho que encontra o caminho a ler o céu noturno não deixa de lembrar, e é bonito, essa velha crença.

Escaravelho da sorte? O que é facto e o que é crença

Quem procura hoje um escaravelho da sorte encontra uma mistura de observação, fé antiga e significados pessoais. Vale a pena separar as coisas:

  • documentado: o escaravelho rola bolas e põe o ovo numa toca; os egípcios associaram-no a Quepri e ao sol nascente; os amuletos, os escaravelhos do coração e a série de Amenófis III existem, e museus como o Louvre conservam-nos;
  • crença: a ideia de que um escaravelho protege, faz renascer ou dá sorte. Era a fé dos antigos egípcios.

As inscrições com votos de boa sorte da XVIII dinastia mostram que o desejo vem de longe. Hoje, cada pessoa pode ver no escaravelho uma imagem que lhe diga alguma coisa: um novo começo, uma fase difícil que termina, uma manhã depois de uma noite longa. É um significado que cada um escolhe dar-lhe, e isso já não é pouco.

A quem oferecer um escaravelho

Com uma história tão longa, o escaravelho é um presente que tem algo para contar. Vai agradar sobretudo:

  • a quem começa um novo capítulo: um emprego novo, uma mudança de casa, um regresso depois de uma fase difícil;
  • a quem sonha com o Egito antigo e não perde um museu;
  • a quem gosta de observar os insetos e a natureza;
  • a quem prefere um desenho gráfico e marcante a um motivo discreto.

Um escaravelho negro e prateado

Entre os nossos broches em forma de escaravelho, o modelo atual joga com o contraste: uma silhueta em aço de cor prateada que desenha seis patas e duas antenas, grandes elementos cinzento-escuro com estrias finas e volumes negros brilhantes. Prende-se com um fecho magnético. É um escaravelho mais gráfico do que egípcio: o significado é aquele que lhe der, sol da manhã ou simples gosto por bichos bonitos.

Fica bem na lapela de um casaco, num sobretudo ou num xaile. Quanto à cor da roupa: o preto acompanha os volumes brilhantes, o cinzento combina com os elementos estriados, o cru faz sobressair a silhueta e o bordeaux dá-lhe um contraste mais quente.

O escaravelho não está sozinho na família: os broches de insetos reúnem outros pequenos animais com história. Se o tema lhe interessa, contamos também o que simboliza a libelinha e como a abelha se tornou um símbolo.

O significado do escaravelho, num relance

A simbologia do escaravelho nasce no Egito antigo, onde um inseto de verdade se tornou a imagem do sol que renasce. Cada significado assenta numa observação ou num objeto concreto:

Ponto de partidaLeitura egípcia ou modernaSignificado
O escaravelho empurra uma bola à sua frenteQuepri empurra o sol acima do horizonteO sol nascente
O verbo kheper, «vir à existência»Quepri, o deus do «tornar-se»O devir, a transformação
Uma larva sai de uma bola enterradaImagem de renovação e ressurreiçãoO renascimento
Pequenos escaravelhos de esteatiteObjeto que se traz consigo e que serve de seloProteção, boa sorte
Escaravelhos do coração sobre as múmiasTexto que devia proteger o coração do defuntoA passagem para o além
Escaravelho guiado pela Via Láctea (estudo de 2013)Descoberta científicaUm inseto que lê o céu

Uma bola, um sol, uma manhã que volta: toda a história do escaravelho cabe nesse gesto teimoso.

Perguntas frequentes

De onde vem o nome científico Scarabaeus?▾

Do latim scarabaeus, palavra que vem, por sua vez, do grego kárabos.

Onde vive hoje o escaravelho-sagrado?▾

É uma espécie da região do Mediterrâneo.

Em que cidade egípcia se adorava Quepri?▾

Em Heliópolis.

Todos os escaravelhos fazem bolas?▾

Não. Em sentido lato, a palavra designa todo um grupo de coleópteros: os que fazem bolas de esterco, mas também as cetónias ou os escaravelhos-rinoceronte. Alguns autores reservam-na apenas para os que fazem bolas.

Quantos géneros tem a família dos escarabeídeos?▾

Muitíssimos. A 23 de junho de 2023, o Catalogue of Life registava 2590 géneros só na família Scarabaeidae, e cada género pode reunir várias espécies.

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